155 anos de Rosa Luxemburgo: lições que permanecem!
- Marcos Morcego
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Por Marcos Morcego
Hoje recordamos a história, os ensinamentos e celebramos a vida de Rosa Luxemburgo, sem dúvidas, referência fundamental para a Caverna do Morcego [1] e para o posicionamento do que entendo como revolução e socialismo! Em meio a guerras, ao avanço do neoliberalismo e todas as formas brutais de violência (contra a terra, as mulheres, as pessoas racializadas e todas as formas de subalternização), à exploração da nossa vida, do nosso tempo e do nosso trabalho, emerge uma Rosa que dedicou a vida contra todos esses elementos!
Uma militante que se sente “em casa no mundo todo, onde quer que haja nuvens e pássaros e lágrimas humanas” [2], demonstrando constantemente seu amor por tudo que a rodeava, as plantas, árvores, animais e as pessoas. Mas que também nunca se esquivou da luta, “não fugiria nem mesmo sob ameaça de forca, e isso pelo simples motivo de que considero absolutamente necessário acostumar o nosso partido com o fato de que sacrifícios fazem parte do ofício do socialista e são uma obviedade”, terminando essa carta com “viva a luta!” [3]. Que defendia a posição de Franz Mehring, que “ensinou aos nossos trabalhadores que o socialismo não é uma questão de “garfo e faca”, e sim um movimento cultural, uma grande e orgulhosa visão de mundo” [4]. Que não negava que precisava “estar sozinha com Mimi” (sua gata), mas “da maneira mais mecânica” se jogava “novamente à luta”, colocando assembleias muitas nas semanas, trabalhando em sua organização e construindo uma revista, que seria um dos meios fundamentais de propaganda após a deflagração da guerra [5].
Ela entendia o militarismo como ferramenta indispensável “para as atuais classes dominantes e os governos de hoje”, principalmente por tornar “o Estado o comprador mais vantajoso”, a devastação se torna “o negócio mais brilhante para o capital”, formas de genocídio em prol do lucro, do controle e do sadismo. Sendo assim, a saída da autora, bem como de um grande movimento de mulheres socialistas, pensa na “intervenção consciente” e na “luta política da classe trabalhadora pela transformação socialista ou pela milícia”, ou seja, não apenas um pedido recorrente pela paz e em defesa das vidas humanas e animais (pensando que esse texto é de 1899) [6], mas se organizando para frear as armas da devastação.
Já em 1911 [7], ela vislumbrava a guerra que se levantava, principalmente a partir dos avanços nas colônias, tendo como referência Marrocos, que estava sendo invadida pela Alemanha, país em que estava residindo. Tinha clareza de que “esperar quaisquer tendências pacíficas dessa sociedade capitalista”, e confiar que as instituições resolveria “seria, para o proletariado, autoenganação mais ingênua à qual ele poderia sucumbir”. O movimento do capital é esse, manter colonizando e explorando, seja na Palestina, nos países atacados pelos EUA e por “israel”, como o Irã e países latino-americanos, seja nos países que França, Alemanha e etc. tentam intervir, principalmente no continente africano, seja nas nossas favelas e quebradas (e o sadismo apresentado no começo aqui aparece pela questão étnico-racial, já colocada nos escritos da autora). E nos restaria assim, como “o único meio eficaz de combater as brutalidades da guerra e da política colonial” a “maturidade intelectual e [o] desejo decidido da classe trabalhadora, da guerra mundial baseada sobre os interesses nefastos do capital, e transformá-los em uma rebelião dos explorados e dominados rumo à realização da paz mundial e da irmandade socialista dos povos”.
Nesse chamado da autora para a libertação humana é dado destaque para a mulher trabalhadora, em meio à luta principalmente do voto feminino, mas com a guerra na beira de suas portas, aparece seu texto A proletária [8], publicado no dia 5 de março de 1914, no dia de seu aniversário e na beira do dia 8 de março. Nele ela diz (e aqui vai um trecho longo):
A proletária precisa de direitos políticos, pois exerce a mesma função econômica que o proletário masculino na sociedade, se sacrifica igualmente para o capital, mantém igualmente o Estado, é igualmente sugada e subjugada por ele. Ela tem os mesmos interesses e, precisa, para sua defesa, das mesmas armas. Suas reivindicações políticas estão profundamente enraizadas no abismo social que separa a classe dos explorados da classe dos exploradores; não na oposição entre o homem e a mulher, mas na oposição entre o capital e o trabalho.
Boa parte dos enfrentamentos com os homens do partido e da política alemã e polonesa se deram em torno das mulheres na frente das decisões e das lutas, tendo participado em 1905 da primeira parte da revolução russa, sendo presa inúmeras vezes por seu enfrentamento, mas expandindo a força com outras mulheres e contra a sanha por guerra, inclusive, do partido social-democrata alemão. Parece que reassistimos (e tô cansado de usar aquilo do Marx de a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa), a devastação pelas guerras, o genocídio, a violência extrema no cotidiano, nossas chances de vida sendo devastados e a escalada de como as coisas se dão com mulheres e povos não brancos. E aí peço que vocês retornem ao texto da Fátima, aqui na Clio Operária, quando diz que:
A violência de gênero não se sustenta apenas no ódio; ela se sustenta também em vínculos atravessados por dependência econômica, por desigualdade de direitos, por uma moral sexual disciplinadora e pela ideia de posse. Quando um homem agride ou mata uma mulher por ciúmes, “em defesa de sua honra” ou por não aceitar um término ou uma rejeição, não se configura um “drama individual”, mas sim a expressão agudizada de uma lógica social. [9].
E sendo assim, Rosa termina seu texto convocando:
“Proletária, a mais pobre dos pobres, a mais injustiçada dos injustiçados, vá à luta pela libertação do gênero das mulheres e do gênero humano do horror da dominação do capital. A social-democracia concedeu a você um lugar de honra. Corra para o front, para a trincheira!”. A única saída é “contrapor o decidido desejo de paz das massas populares aos anseios de guerra dos governos”, é internacionalizar a luta por libertação e se unificar na luta contra o capital!
Estamos novamente assistindo aos “escombros de felicidade humana aniquilada”, ou melhor, estamos nesse contínuo histórico, já que “enquanto houver propriedade privada, exploração, riqueza e pobreza, as guerras são inevitáveis e cada uma espalha à sua volta, morte e pestilência, extermínio e miséria” [10]. O Socialismo, e ainda mais o Socialismo Internacional tem que ganhar impulso para que nós ressuscitamos “das ruínas como o único meio de salvar a humanidade do inferno de uma dominação de classe”, “dessa guerra as massas populares retornarão, com ímpeto ainda mais tempestuoso”, bradando nossas bandeiras, não para traí-la novamente na próxima orgia imperialista, mas para defendê-la em uníssono contra todo o mundo capitalista, contra suas intrigas criminosas, suas mentiras infames e suas lamentáveis frases sobre “pátria” e a “liberdade”, e para fincá-la vitoriosamente sobre as ruínas do imperialismo sanguinário [11].
Na Alemanha, em 1918, em novembro, no começo da revolução, Rosa ganha sua liberdade, e reforça pontos fundamentais:
Não queríamos "anistia" nem perdão para as vítimas políticas do velho poder reacionário. Exigíamos nosso direito à liberdade, à luta e à revolução para aquela centena de militantes corajosos e leais que definhavam nas penitenciárias e nas prisões por terem lutado, sob a ditadura militar do bando criminoso imperialista, pela liberdade do povo, pela paz e pelo socialismo. Agora estão todos em liberdade. Estamos novamente em fila, prontos para o combate. Não foram os Scheidemann e seus cúmplices burgueses, como o príncipe Max à frente, que nos libertaram. Foi a revolução proletária que fez explodir as portas de nossas prisões [12].
Sendo assim, restava à revolução proletária e socialista não deixar os donos do capital e financiadores da guerra impunes, assim como abolir as prisões, recolher o sangue das guerras, uma seiva preciosa que não nos deixa esquecer que “o único e verdadeiro alento do socialismo” é “a mais violenta atividade revolucionária e a mais generosa humanidade”. É preciso lembrar que “um mundo precisa ser revirado, mas cada lágrima que cai, embora possa ser enxugada, é uma acusação; e, aquele que, para realizar algo importante, de maneira apressa e com brutal descuido esmaga um pobre verme, comete um crime”.
A convicção de Rosa não cabe nas pequenas palavras desse texto, mas nos convoca para a disposição de lutar contra as guerras, entendendo que para isso é necessário lutar pelo socialismo e pelo fim da exploração capitalista. Também é importante esclarecer que não se pode falar sobre isso sem pautarmos libertação das mulheres, dos animais, das plantas, sem a abolição das prisões e sem falar sobre todo o sistema de exploração e opressão construído com a dominação colonial. Rosa nos convoca a lutar e negar os horrores da sociedade capitalista, não naturalizar e abrir caminho em meio ao concreto para outras formas de viver! Socialismo ou Barbárie!
Referências:
[1] Rosa Luxemburgo na Caverna do Morcego: 1 - Rosa Luxemburgo e a reinvenção da política: https://www.youtube.com/playlist?list=PLwOYAlx_eyF1-Fp7JZux_zDXqPqU593_g; 2- O que quer a liga spartacus?: https://open.spotify.com/episode/3vWqrJll3x6uoVhrDyYn4W?si=a932524a2689478e
[2] Rosa Luxemburgo: Cartas. Isabel Loureiro [org]. Editora Unesp. Trecho da carta para Mathilde Wurm em 16 de fevereiro de 1917
[3] Rosa Luxemburgo: Cartas. Isabel Loureiro [org]. Editora Unesp. Trecho da carta para Walter Stoecker em 11 de março de 1914.
[4] Rosa Luxemburgo: Cartas. Isabel Loureiro [org]. Editora Unesp. Trecho da carta para Franz Mehring em 27 de fevereiro de 1916.
[5] Rosa Luxemburgo: Cartas. Isabel Loureiro [org]. Editora Unesp. Trecho da carta para Costia Zetkin em 24 de dezembro de 1914.
[6] Rosa Luxemburgo: Textos escolhidos vol 1 (1899 - 1914). Isabel Loureiro [org]. Editora Unesp. Capítulo: Anexo: Milícia e Militarismo (1899)
[7] Rosa Luxemburgo: Textos escolhidos vol 1 (1899 - 1914). Isabel Loureiro [org]. Editora Unesp. Capítulo: Marrocos (1911).
[8] Rosa Luxemburgo: Textos escolhidos vol 1 (1899 - 1914). Isabel Loureiro [org]. Editora Unesp. Capítulo:A proletária {1914).
[9] Texto de Fátima Machado: Feminicídio, capitalismo e emancipação: A resistência exige teoria, organização e estratégia: https://www.cliooperaria.com/post/feminic%C3%ADdio-capitalismo-e-emancipa%C3%A7%C3%A3o-a-resist%C3%AAncia-exige-teoria-organiza%C3%A7%C3%A3o-e-estrat%C3%A9gia
[10] Rosa Luxemburgo: Textos escolhidos vol 2 (1914 - 1917). Isabel Loureiro [org]. Editora Unesp. Capítulo: Escombros (1914).
[11] Rosa Luxemburgo: Textos escolhidos vol 2 (1914 - 1917). Isabel Loureiro [org]. Editora Unesp. Capítulo: Pela Solidariedade Internacional! (1914)
[12] Rosa Luxemburgo: Textos escolhidos vol 2 (1914 - 1917). Isabel Loureiro [org]. Editora Unesp. Capítulo:Uma questão de honra (1918).
