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Contra o neoliberalismo e a polícia: economia da dívida (T06E03)

Quando Jackie Wang decide escrever o projeto que origina esse livro, sua posição já era

“anti-polícia”, ainda que “em alguns círculos da esquerda, era frequentemente considerado

escandaloso”. Após o que foi o Occupy Wall Street [1] a autora, assim como outras pessoas

se inseriram em diversas e “intensas experiências coletivas”, que iam de cozinhar, comer

juntos, criar “coletivos de arte e de saúde mental”, e construir redes de solidariedade com

“prisioneiros, comunidades intencionais queer e de pessoas de cor” (lembrando que

pessoas de cor é a tradução literal utilizada), até a ocupação de prédios, circular livros e

fazer “atividades cooperativas”, além da expansão e politização do “entendimento sobre

amizade”. Sendo assim, diz ela, “inundamos de desejo nossas práticas e movemos a

política para além do reino compartimentado da “organização”. Essas eram experiências

políticas, sim, mas eram também experiências de criação de novos modos e ritmos de

existência e de redes sociais materiais enraizadas na reprodução da vida cotidiana”.


Salve Salve Morceguetes e Morcegotes, entramos, finalmente e efetivamente, nas linhas

rabiscadas por Jackie Wang, em seu livro Capitalismo Carcerário, disponibilizado pela

Editora Igra Kniga aqui no Brasil [2]. A partir desse momento, caminharemos pelas

elaborações que fazem idas e vindas, que são ora poéticas, ora trazendo análise de dados,

indo do plano local ao global e retornando, ou seja, nos levando por um caminho que não é

uma reta, mas que dá voltas, traz os contornos da vida nas próprias palavras.


Então vocês poderão ver que, apesar do título, ou até das palavras de abertura, que

antecedem essa nossa apresentação do projeto, nem sempre serão um reflexo completo da

continuidade do episódio.


Lembrando, sou Marcos Morcego, Eu sou Marcos Morcego, comunicador político da

Caverna do Morcego. Além desse quadro, aqui no nosso canal também temos o projeto de

Leitura e Discussão, que são vídeos semanais, lendo e disponibilizando o pdf. Também

temos nosso podcast: Caverna do Morcego [3], disponível em quase todos esses aplicativos

que da pra ouvir coisa.


Não se esqueçam de: curtir, comentar e compartilhar. Também sigam nossas redes sociais:

@morcego_marcos_ no instagram e marcosmorcego.bsky.social, no bluesky.

Agora os agradecimentos:


Autonomia Literária, em que temos o cupom #MorcegonaAutonomia rolando, que garante

20% de desconto em todos os produtos do site [4];


Clio Operária, nossa revista maravilhosa, em que produzo artigos e sou editor e que conta

com uma equipe muito pesada [5]; Contando com uma coisa muito especial, agora os

roteiros da nossa série sobre Lei de Drogas, Encarceramento em Massa e Violência policial,

serão publicados no nosso site eihn!?


E Editora Terra Sem Amos, editora pela qual publiquei meu livro: Por uma implosão da

sociologia [6]. Lembrando que todo nosso roteiro será disponibilizado no site da Clio

Operária.


E pra encerrar, temos uma nova editora, Abertura Editorial, que vocês já podem ir seguir [7];


e se curtiu o projeto e quer apoiar, na descrição do vídeo terão as formas de fortalecer a

Caverna do Morcego [8].


O primeiro ponto destacado pela autora começa então no que foi conhecida como

Primavera Árabe, e as ocupações de praças, já trabalhadas aqui na Caverna, em que

“parecia possível derrubar governos com a resistência nas praças, planejar coletivamente

nosso futuro por meio do microfone aberto a todas e todos e do processo de tomada de

decisão consensual”, importante lembrar que muitas pessoas acreditavam que nas redes

sociais estava surgindo a revolução e uma nova forma de construir a horizontalidade. E

também teve uma parcela de pessoas, como nos EUA, que dizia que os policiais estavam

ao lado dos ocupantes. “Mas, em todos os lugares dos Estados Unidos, foi a polícia que

removeu os acampamentos do Occupy, promovendo, com frequência, ataques surpresas

aos acampamentos, improvisados no meio da madrugada e demonstrando, mais uma vez,

que sempre que o status quo estiver ameaçado, ela será usada como instrumento de

repressão política”.


Não se pode descartar que “o papel estrutural da polícia” é “a manutenção da supremacia

branca e do capitalismo”. Nos anos subsequentes o que se assistiu foi que “um momento de possibilidades se converteu em seis anos de guerra civil na Síria; na implosão econômica e política do Egito, da Líbia, do Iêmen e de outras nações [...], que desencadeou movimentos reacionários em toda a Europa” e revitalizou “o apoio a partidos de direita fascistas, neofascistas, populistas e ultrarracistas”. E hoje tudo isso desemboca em tentativas permanentes de neocolonialismo e expansão da “civilização ocidental”, aprisionamentos, genocídios e bombas sendo jogadas pelos donos do poder.


Mas, após 2014/2015, Jackie Wang vê o rapper Tef Poe, assim como algumas revistas

“como Time, Rolling Stone, MTV News e The Nation”, reforçando a validade de distúrbios

violentos, após diversos casos de brutalidade policial, quase como uma lição que ainda

temos que aprender aqui no Brasil, de “que virar carros de polícia era uma forma legítima de protesto”.


Mas, antes do caso de Ferguson e do que foi conhecido internacionalmente como Black

Lives Matter, Wang estava escrevendo o texto “contra a inocência” como uma resposta ao

que [ela] sentia ser um impasse político e discursivo - isto é, uma asfixia, provocada pelo

liberalismo, da forma como entendemos a natureza do racismo e as táticas consideradas

legítimas para combatê-lo”. E sua reflexão segue por um caminho importante, esses dias

Nikolas Ferreira, deputado federal racista, pelo PL, associou pessoas pretas e pardas ao

crime [9]. E como diz a autora, “entre as décadas de 1960 e 1990 criminologistas, políticos e

legisladores trabalharam vigorosamente para consolidar a figura do criminoso negro no

imaginário público”.


Nós sabemos que na realidade brasileira isso é construído desde a colonização, mas que

com a independência e a formação da república armas legais foram usadas para preparar e

estruturar essa nova fase da sociedade. Como diz Dennis de Oliveira [10] “o que é

importante é que em todos esses países, de maioria não branca, o critério racial teve uma

funcionalidade no sentido de sustentar clivagem sociais”, e como destaca Clóvis Moura [11],


“modernizam as táticas, mas a estratégia de poder, a fim de manter os escravos sob

controle, permanece”, e mesmo quando o escravismo se destaca e o capital monopolista

ganha espaço, continua dizendo que “a modernização avança, a economia se regionaliza, a

urbanização se acentua, mas as relações escravistas e as suas instituições

correspondentes, finalmente a estrutura social, conserva-se intocável no fundamental”.

O marco moral da inocência então vai fetichizar a nossa passividade, ele “desligitima formas

militantes de revolta que poderiam ser mais potentes no enfrentamento efetivo do racismo”.


Mas, voltando a cena local, Wang reflete sobre “a Revolta de Ferguson”, que envolveu o

caso em que “o policial branco Darren Wilson” assassinou “a tiros Michael Brown, um jovem

negro de 18 anos que se encontrava desarmado”, e isso desencadeou uma série de

protestos.


A pressão obrigou que o Departamento de Justiça se movesse. “A investigação acabou

revelando a existência de um sistema de pilhagem municipal, envolvendo o secretário de

finanças da cidade, John Shaw, e o Departamento de Polícia”. Então eles matavam e

assediaram os moradores, e utilizavam “os tribunais na geração de receitas para equilibrar

o orçamento municipal”. Ou seja, as formas de extorsão policial estavam servindo para todo

o sistema, pressionando “as pessoas mais pobres por dinheiro”, Levando Wang a fazer a

pergunta perfeita: “QUE PORRA ESTÁ ACONTECENDO?”.


Ela enxerga essa virada no neoliberalismo, a partir dos “métodos de extorsão”, e traz a

definição desse sistema a partir de Michael Dawson e Megan Ming Francis em [“Black

Politics and the Neoliberal Racial Order” [12]] Política negra e a Ordem Neoliberal Racial em

tradução literal, como “um conjunto de políticas e princípios ideológicos que inclui a

privatização de bens públicos; a desregulamentação ou eliminação dos serviços do estado;

a estabilização macroeconômica e o desestímulo às políticas keynesianas; a abertura

comercial e a desregulamentação financeira; a ênfase discursiva em soluções “neutras”,

eficientes e técnicas para os problemas sociais; e o uso da linguagem de mercado para

legitimar novos padrões e neutralizar a oposição”.


Então, do Estado de Bem-Estar social, passamos para o programa de austeridade, e agora

entramos no “estado predatório, que funciona para modular os aspectos disfuncionais do

neoliberalismo e, em particular, o problema da realização no setor financeiro”. Basicamente,

e a partir de exemplos sobre os títulos municipais, como no caso da falência de Detroit, ela

observa como as famílias pobres perderam posse, enquanto “os 0,5% das famílias mais

abastadas possuíam 42% de todos os títulos municipais. A questão de a quem pertence a

dívida pública é uma questão política que permite que o setor financeiro e os estadunidenses mais ricos façam valer seus interesses alegando que são interesses de

todos”.

Com a financeirização da dívida pública, e isso já pode ser visto muito forte no Brasil, quem

geralmente dá o dinheiro para cobrir, são empresas “do setor financeiro” [13], com isso, “os

órgãos governamentais se tornam mais comprometidos com os credores do que com a

população”. Se antes as empresas já estavam imbricadas em saquear a gente, e o Estado,

como estrutura ajudou a mediar essas relações, agora essa relação se torna ainda mais

próxima, seguimos acompanhando um desenvolvimento e um progresso feito para as


classes dominantes, enquanto nos mata, nos sufoca, nos expulsa, é o novo passo da

acumulação, que antes de ser contraditório, é a aceleração da democracia burguesa e o

novo revestimento do Estado.


“Em suma, o resultado das políticas neoliberais e da redução fiscal federal não foi apenas a

privatização e a austeridade, mas a governança predatória e parasitária nos níveis estadual

e local e o endividamento como condição social generalizada”. E quando esses acordos dão

errado, vocês conseguem adivinhar quem tem que pagar essa dívida? “Recentemente, a

cidade de Miami, no estado da Flórida, processou o Bank of America por dados financeiros

indiretos causados por empréstimos hipotecários subprime discriminatórios. Esses

empréstimos, com altas taxas de juros, tinham como alvo pessoas negras e latinas, e foram

projetados com o objetivo de tornar seus mutuários inadimplentes”.


A partir da Califórnia, houve uma pesquisa encomendada para verificar formas pelas quais

os municípios poderiam arrecadar dinheiro [14], que incluíam: “taxas para pessoas que

cometem crimes sexuais, registradas em uma determinada jurisdição; empresas de guincho

da municipalidade; aumento de 50% do valor de multas; policiamento pago; taxa de

monitoramento de casas de veraneio; pagamento de taxa no campo de tiro da polícia;

escola de trânsito online para pequenos infratores, administrada pelo departamento de

polícia; serviço de segurança com vigilância domiciliar e monitoramento por câmeras de

segurança sediado no departamento de polícia; uma empresa designada para limpar cenas

de crimes biológicos; taxas estaduais e judiciais para todos os criminosos condenados que

retornam à comunidade; permissão para uso do nome da agência de polícia em

propaganda e branding; multas triplas por dirigir sob a influência de álcool ou drogas; taxas

de segurança pública sobre todos os novos empreendimentos da cidade; cobrança de taxa

pelo uso do número de emergência (911); propaganda comercial no site do departamento

de polícia” e outros muitos mais.


Então, o que acontece é “um movimento em direção ao policiamento e à punição

financiados pelo infrator, incentivam a hisperexploração dos residentes pela polícia por meio

da monetização direta do policiamento ou da aplicação de taxas e multas que arrancam

dinheiro das pessoas quando entram em contato com a polícia”. O contato que se dá,

então, não é de proteção ou de segurança pública, mas é na construção de um sistema de

extorsão e medo. “A polícia está assumindo cada vez mais o papel de geradora de receita

direta, o que garante que seus departamentos não sofram grandes cortes orçamentários ou

demissões quando houver déficits na receita municipal”, além de, na prática, ir instaurando

uma sociedade policialesca, já que “sua sobrevivência e expansão estão ligadas à sua

capacidade de usar o poder policial e o sistema judiciário para saquear os moradores”.


Na lógica de um governo mínimo e de incessantes cortes de gastos, para a polícia e para o

sistema prisional, não é bem assim, podendo, inclusive, aumentar, “pois a manutenção da

lei e da ordem é considerada o domínio apropriado (moralmente autorizado) do governo”. E aí que Bernardo Harcourt, citado pela autora, traz essa ideia do neoliberalismo de que o

Estado não deve intervir, mas a lei e a ordem, são o domínio dele [15]. E estamos dando

toda essa volta, para explicar como uma relação econômica direta, então, não explicaria o

encarceramento em massa.


Então o alerta é feito: “sem uma revolução ou um movimento de rua massivo, até mesmo o

avanço legislativo formal, que foi feito para reduzir o encarceramento em massa, corre o

risco de ser desfeito”.

- FIM -


Referências e Bibliografia:


[1] Abordamos as experiências de ocupação de praça no Egito (Praça Tahir), Espanha

(Plaza de Mayo) e EUA (Occupy Wall Street), a partir da pesquisa militante de Paolo

Gerbaudo em Redes e Ruas, livro pela Editora Funilaria:

[2] Capitalismo carcerário. Jackie Wang. Editora Igrá Kniga.

[4] Site da Autonomia Literária: https://autonomialiteraria.com.br/

[5] Revista Clio Operária: https://www.cliooperaria.com/

[6] Site da Editora Terra Sem Amos: https://tsaeditora.com.br/ / Drive com o livro gratuito

[8] Formas de apoiar a Caverna do Morcego: Apoia.se/cavernamorcego (apoio coletivo);

podcastmorcego@gmail.com (pix e email para contato)

[9] Vídeo com a sua fala: https://www.instagram.com/p/DWY4MwCDY0k/

[10] Racismo Estrutural: uma perspectiva histórico-crítica. Dennis de Oliveira. Editora

Dandara.

[11] Sociologia do negro brasileiro. Clóvis Moura. Editora Perspectiva.

[12] Black Politics and the Neoliberal Racial Order. Michael Dawson e Megan Ming Francis

[13] Para entender o envolvimento direto delas com a população pobre:

[14] Artigo em inglês:

[15] The illusion of Free Markets: Punishment and the Myth of Natural Order. Bernard E.

Harcourt.

 
 
 
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