Feminicídio, capitalismo e emancipação: A resistência exige teoria, organização e estratégia
- Fátima Machado
- 3 de mar.
- 4 min de leitura
Por Fátima Machado*
O Brasil fechou o ano de 2025 atrozmente marcado pelo feminicídio com um recorde histórico que contabiliza a média de 4 mulheres assassinadas por dia. O assombro dos ataques de diversas ordens contra mulheres e a vulnerabilidade que nos é imputada social e historicamente moveu meus pensamentos para a escrita deste texto. Essa brutalidade não é um mero desvio de sistema: ela é sintomática e emblemática de como a crise social se expressa em nossas corpos e vidas, sobretudo em se tratando das mulheres trabalhadoras. É um matemática inversamente proporcional: onde o capital aperta, a vida encurta… austeridade desmonta políticas públicas; a precarização acorrenta; ideologias reacionária cooptam; e a violência doméstica, o assédio e o feminicídio se reforçam como formas extremas de controle, disciplina e punição.
Recém-lançado (em 4 de fevereiro de 2026) o Pacto Nacional Brasil de Enfrentamento ao Feminicídio reúne os Três Poderes para enfrentar a violência letal contra mulheres. A iniciativa é definitivamente um passo importante, mas é vital que o enfretamento envolva mais que indignação moral e conscientização coletiva. Essa epidemia de feminicídio não acontece no vácuo: acontece sob a sombra necrótica do capitalismo. A violência acontece apesar das leis, dos protocolos e das ações porque a verdade é um tanto dura: nenhum política pública consegue parar atrocidades e violências que sustentam e são sustentadas pela ordem do capital. Ser mulher no capitalismo significa estar sob risco constante e mulheres trabalhadoras e periféricas carregam um frado ainda mais pesado, uma vez que lidamos com opressão e exploração.
A violência de gênero não se sustenta apenas no ódio; ela se sustenta também em vínculos atravessados por dependência econômica, por desigualdade de direitos, por uma moral sexual disciplinadora e pela ideia de posse. Quando um homem agride ou mata uma mulher por ciúmes, “em defesa de sua honra” ou por não aceitar um término ou uma rejeição, não se configura um “drama individual”, mas sim a expressão agudizada de uma lógica social.
E para lutar PRECISAMOS DE TEORIA, ORGANIZAÇÃO E ESTRATÉGIA. Para um alicerce teórico forte, é essencial fundamentar e organizar a nossa militância com consistência epistemológica. Por isso, compartilho algumas formulações da militante e intelectual soviética Alexandra Kollontai (aniversariante do mês: em 31 de março seria seu 154 aniversário) - e reforço que a autora emerge como leitura incontornável nestes tempos difíceis.
Analisar o problema em sua totalidade escancara o quanto soluções mais contundentes precisam de materialidade política para além do rigor penal e de campanhas de conscientização. A leitura de Kollontai é útil aqui porque a autora recusa a armadilha de reduzir a emancipação feminina a “mudança de mentalidade”. Ela insiste em condições objetivas: para que uma mulher possa sair de uma relação abusiva, ela precisa de renda, moradia, rede de acolhimento, creche, trabalho protegido, tempo social. Sem política social robusta e financiamento público, o discurso do “denuncie” fica vazio e quase cínico.
Além disso, os movimentos contra a opressão das mulheres são inevitavelmente atravessados por disputa de ideias e por contradições de classe. O eixo kollontaiano ressalta que o feminismo burguês busca igualdade com homens da própria classe; já mulheres trabalhadoras não lutam meramente por representatividade, mas por sobrevivência, tempo, salário, direitos e liberdade real. Essa distinção muda a estratégia para enfrentar a violência. Se o problema é tratado como “patriarcado separado do capitalismo”, frequentemente a solução vira moralização, punição abstrata ou separação organizativa. Se o problema é compreendido como estrutural e material, a resposta precisa envolver, necessariamente, organização coletiva da classe trabalhadora: sindicatos, movimentos populares, redes territoriais, serviços públicos e orçamento. Em outras palavras: a disputa sobre a origem da opressão é uma disputa sobre o caminho para derrotá-la.
A questão é de uma complexidade imensa e não tive pretensão de falar sobre todas as múltiplas camadas que a envolvem, mas queria compartilhar a conclusão que os gritantes números de feminicídio esfregam na nossa cara: enquanto houver dependência econômica, privatização do cuidado, moral sexual repressiva e naturalização da posse na instituição família de modelo burguês, a resposta política não pode se limitar a campanhas de conscientização. A escala 6x1 somada a duplas ou triplas jornadas de sobrecarga de trabalho doméstico e de cuidado não remunerados muitas vezes mantém mulheres em situações de dependência e vulnerabilidade, dificultando ou impossibilitando romper ciclos de violência.
Deixo aqui algumas questões que precisam nortear nossos debates e reflexões mais aprofundadas: (1). a violência contra a mulher não é acidente, contingente ou circunstancial, é estrutural, sistêmica e social e historicamente construída; (2). o matrimônio e a hegemonia do modelo de família burguês podem funcionar como engrenagens da propriedade; (3). a liberdade afetiva exige independência material e redes coletivas; (4) a emancipação e a proteção das mulheres é inseparável de um projeto de transformação social comprometido e consistente. Em resumo, não há saída sem lutarmos contra o capital, desafiando o patriarcado, a família e o Estado burguês.
Diante de uma lógica que ameaça nossa segurança, nossas vidas, nossa saúde (física e mental) todos os dias, transformar medo e raiva em organização e resistência é urgente, necessário e inadiável. Verifiquem as agendas e se acheguem aos atos nacionais que acontecerão no próximo 08 de março, Dia Internacional da Mulher. Muitos movimentos estão se organizando para ocuparem as ruas contra a violência de gênero, a escala 6x1 e o direito ao aborto.
“As mulheres só serão livres e iguais num mundo onde o trabalho for socializado e onde o comunismo tiver triunfado.”
― Alexandra Kollontai
Sugestões de leitura:
BRONNIKOVA, Olga; RENAULT, Matthieu. Kollontai: desfazer a família, refazer o amor. São Paulo: Boitempo, 2025.
KOLLONTAI, Alexandra. Autobiografia de uma mulher comunista sexualmente emancipada. São Paulo: Sundermann, 2007.
SCHNEIDER URSO, Graziela (org.). A revolução das mulheres: emancipação feminina na Rússia soviética: artigos, atas, panfletos, ensaios. São Paulo: Boitempo, 2017.




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