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Capitalismo verde está em campanha? A cidade-colagem e a mercantilização da crise

Por William Poiato


Algum pré-candidato a deputado deve ter apresentado seu projeto de país diante de um painel verde-limão onde se lia: “Cidade sustentável, inteligente e resiliente”. O programa pode prometer créditos de carbono municipais, pagamento por serviços ambientais, incentivos fiscais para prédios “ecoeficientes” e parceria com grandes incorporadoras para “revitalizar” áreas degradadas. No vídeo de campanha, drones sobrevoariam telhados verdes, ciclovias reluzentes e fachadas espelhadas com selos ambientais. A crise climática vira cenário; a sustentabilidade, slogan; a cidade, vitrine.


A cena é um sintoma. Ela revela uma transformação mais profunda: a incorporação da pauta ecológica à lógica da acumulação capitalista e à gramática eleitoral. A sustentabilidade aparece como consenso técnico, solução gerencial e oportunidade de negócio urbano. Mas o que se esconde por trás desse consenso verde?


A cidade como espetáculo verde


Harvey argumenta que a transição do fordismo para a acumulação flexível, após a crise dos anos 1970, produziu uma reconfiguração radical da experiência do tempo e do espaço. A compressão do tempo-espaço — acelerada por tecnologias de transporte, comunicação e finanças — tornou o mundo mais instantâneo, volátil e fragmentado. O presente se impõe como urgência permanente; a imagem, como valor supremo.


Nesse contexto, a política também se estetiza. Projetos urbanos deixam de ser apenas infraestrutura e tornam-se narrativa visual. A “renovação” modernista cede lugar à “revitalização” pós-moderna: não se fala mais em demolir, mas em requalificar; não se promete planejamento, tudo é experiência.


A sustentabilidade encaixa-se perfeitamente nessa lógica. Ela oferece uma estética conciliadora: prédios com fachada verde, parques lineares instagramáveis, startups de mobilidade limpa, certificações ambientais. Tudo parece simultaneamente ético e lucrativo. A crise ecológica é convertida em oportunidade de inovação.


Mas essa estetização não é neutra. A hegemonia política depende do controle do contexto material da experiência. Quando o espaço urbano é reorganizado como vitrine de consumo — inclusive consumo moral —, ele reforça uma determinada forma de poder. A cidade torna-se “colagem”: fragmentos arquitetônicos, ilhas de prosperidade, enclaves seguros, conectados por fluxos financeiros globais.


O verde entra como camada simbólica dessa colagem.


Da fratura metabólica ao mercado ambiental


Os instrumentos econômicos de “proteção ambiental” incorporados ao ordenamento jurídico brasileiro — créditos de carbono, Cota de Reserva Ambiental, pagamento por serviços ambientais — operam dentro da lógica que cria a crise.


O princípio do poluidor-pagador, por exemplo, parece racional: quem polui paga. Mas, na prática, ele pode legitimar a destruição mediante compensação financeira. Poluir torna-se custo operacional. Créditos de carbono criam um mercado onde reduzir emissões vira commodity; preservar vegetação transforma-se em título negociável etc.


O resultado é paradoxal: a natureza é protegida como propriedade, deixa de ser bem comum. O verde vira ativo.


Quando campanhas eleitorais adotam essa gramática, a sustentabilidade é apresentada como eficiência administrativa: captar recursos climáticos internacionais, atrair investimentos ESG, monetizar serviços ecossistêmicos. A questão ambiental é deslocada do campo do conflito social para o da gestão técnica.


Mas quem define as regras desse mercado? Quem lucra com os novos títulos verdes? Quem arca com os custos territoriais — deslocamentos, gentrificação, aumento do preço da terra?


Compressão do tempo, aceleração da crise


A condição pós-moderna intensifica o problema. A aceleração constante exige respostas rápidas, soluções visíveis, resultados mensuráveis em ciclos eleitorais curtos. Políticas ambientais estruturais — reforma fundiária, democratização do acesso à terra, mudança no padrão produtivo — são lentas, conflituosas e pouco fotogênicas.


Em seu lugar, proliferam projetos-vitrine: corredores verdes que valorizam o entorno imobiliário; parques lineares que removem ocupações informais; certificações ambientais que elevam o preço do metro quadrado. A sustentabilidade integra a estratégia de city marketing.


A compressão do tempo-espaço também amplia a financeirização da natureza. Fundos globais investem em terras, florestas e créditos de carbono em diferentes continentes. O território local torna-se nó de uma rede financeira planetária. A cidade que promete neutralidade climática participa, ao mesmo tempo, de cadeias globais de extração de minérios, energia e alimentos.


A imagem é verde; a estrutura permanece fóssil.


Juntas, as abordagens revelam algo decisivo: o capitalismo verde é também uma forma cultural. Ele depende de uma subjetividade acostumada à velocidade, à estética da inovação e à crença na solução tecnológica.


A sustentabilidade, nesse registro, deixa de ser horizonte civilizatório; é apenas um diferencial competitivo.


Eleições, poder e disputa de sentido


Nas campanhas municipais e nacionais, a pauta ambiental aparece como consenso. Quase todos os programas falam em resiliência, economia verde, transição energética. A divergência raramente é sobre o diagnóstico da crise, mas sobre o modelo de gestão.


No entanto, por trás da linguagem comum, há projetos distintos de sociedade. Um deles aposta na expansão de mercados ambientais, na atração de capital internacional e na parceria com grandes empresas como motor da “transição”. Outro questiona a própria lógica de crescimento ilimitado e propõe democratização radical do acesso à terra, à água e à energia.


A diferença é política. Envolve classe, propriedade, controle do território.


Quando grandes empresas poluidoras figuram entre financiadoras de campanhas, a incorporação do discurso verde ganha contornos ainda mais ambíguos. O marketing ambiental pode funcionar como cortina de fumaça, deslocando o debate das relações de produção para indicadores de eficiência.


A pergunta central torna-se: sustentabilidade para quem?


Se a cidade verde encarece o solo urbano e expulsa populações periféricas, estamos diante de proteção ambiental ou de reconfiguração seletiva do espaço? Se créditos de carbono permitem manter o padrão de emissão mediante compensação distante, estamos reduzindo a crise ou apenas redistribuindo seus efeitos?


O que está em disputa


A eleição não decide apenas gestores; decide o modo como a crise será narrada e administrada. A condição pós-moderna facilita a naturalização de soluções rápidas, visuais e financeiramente integradas. O capitalismo verde oferece um roteiro confortável: conciliar crescimento e preservação, lucro e ética, mercado e planeta.


Mas a própria lógica que promete solução é aquela que exige expansão constante, abertura de novos mercados e mercantilização de esferas antes comuns. A crise ambiental, nesse sentido, converte-se em nova fronteira de acumulação.


Talvez o maior risco não seja a ausência de discurso ambiental nas campanhas — isso já não ocorre. O risco é a consolidação de um consenso verde que esvazia o conflito e transforma a disputa ecológica em competição por investimentos.


Entre telhados verdes e slogans resilientes, a pergunta permanece incômoda: estamos elegendo administradores da crise ou protagonistas de uma transformação estrutural?


Se a compressão do tempo-espaço nos empurra para soluções instantâneas, talvez o gesto mais radical seja desacelerar a narrativa e recolocar a política no centro. Porque a cidade não pode ser apenas vitrine; é, sim, território vivido. E o planeta não deve ser um mero ativo financeiro; ele, de fato, é condição da existência.


O verde pode ser promessa de futuro — ou apenas nova cor da mesma ordem.


Referências:


Harvey, David. A Condição Pós-Moderna: Edições Loyola, São Paulo, 1992 (17ª ed., 2008).


BELLO, Enzo; DALLA SANTA, Allana Ariel Wilmsen. Capitalismo verde e crítica anticapitalista: “proteção ambiental” no Brasil. Revista Jurídica (0103-3506), v. 3, n. 48, 2017


 
 
 

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