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O Agente Secreto e o legado macabro da ditadura

Por Ricardo Normanha*


Os fantasmas da memória


O cinema nacional assumiu, nos últimos anos, uma importante tarefa: enfrentar os fantasmas da ditadura civil-militar iniciada em 1964. A temática não é nova nas telas brasileiras. São muitos os títulos nacionais que buscaram, a partir de diferentes prismas, refletir sobre essa página infeliz da nossa história, como diria Chico Buarque. Ainda durante a vigência do regime comandado pelos militares, em 1983, o filme Pra Frente Brasil, de Roberto Farias, mostrou como a ditadura não era “apenas” militar, revelando nas telas a simbiose entre o alto empresariado nacional (e internacional) na máquina de repressão do Estado [1]. O lançamento do filme custou o cargo de Celso Amorim, então presidente da estatal Embrafilme, retaliado pelo regime por “autorizar” um filme crítico à ditadura, financiado pelo Estado. Essa mesma relação visceral entre militares e burguesia foi o tema do documentário brasileiro Cidadão Boilesen, de 2009, dirigido por Chaim Litewski. Podemos listar muitos títulos nacionais que abordam a ditadura: Que bom te ver viva (1989), de Lúcia Murat; Lamarca (1994), de Sérgio Rezende; O que é isso, companheiro? (1997); de Bruno Barreto; e O ano em que meus pais saíram de férias (2006), de Cao Hamburger, são só alguns poucos exemplos de uma lista extensa de filmes de alta qualidade. 


Mas a última quadra da história política do Brasil fez emergir novamente a necessidade de se continuar retratando esse período que já marca mais de 60 anos de seu início e 40 de seu término oficial. A ascensão da extrema-direita e, especialmente, a eleição de Jair Bolsonaro, notório adorador da ditadura e de torturadores, à Presidência da República fez com que os setores mais combativos do campo progressista e de esquerda que atuam no campo da cultura enfrentassem o desafio de pautar a permanente necessidade de disputa da memória política do país. Sintoma desse processo, é a grande relevância que os filmes nacionais que discutem a ditadura civil-militar ganharam nos últimos anos. Em 2019, a película Marighella, dirigido por Wagner Moura, que retrata a vida e a luta de um dos maiores expoentes da resistência ao regime implantado em 1964, ganhou os holofotes da mídia nacional e internacional pois teve o seu lançamento adiado após inúmeras tentativas de censura do governo Bolsonaro. 


No mesmo clima, chega aos cinemas em 2024 o filme Ainda estou aqui, dirigido por Walter Salles e que retrata a peleja de Eunice Paiva por memória, verdade e justiça tendo como epicentro o sequestro, assassinato e ocultação do cadáver de seu companheiro Rubens Paiva pelo regime ditatorial. O filme, premiado internacionalmente, foi o primeiro brasileiro a vencer um Oscar. Mas, para além das premiações, a obra de Walter Salles, baseada no livro de Marcelo Rubens Paiva, voltou a colocar a luta pela memória e pela verdade na pauta do debate público. Na esteira dessa discussão, em 2025 tivemos a estreia de O Agente Secreto, de Kléber Mendonça Filho, que concorre à quatro indicações ao Oscar na premiação do próximo dia 15 de março. 


Enquanto Ainda Estou Aqui nos confronta com uma espécie de delicadeza áspera e incômoda de um luto interditado e a resistência do cotidiano de uma família, O Agente Secreto mergulha espectadores em um thriller assombrado por fantasmas que ainda estão enraizados na cultura política do país [2]. Mas ambos os filmes tocam no passado para refletir sobre o presente. Em outras palavras, trata-se da necessidade de resgatar a história para a compreensão de suas permanências na sociedade brasileira. Em tempos de militarização de escolas e da presença ostensiva e truculenta das forças de segurança em todas as esferas da sociedade, nos cabe refletir sobre como os fantasmas do passado permanecem nos assombrando.


Vigilância capilarizada


Sem correr o risco de “spoiler” vale mencionar alguns pontos importantes da trama de O Agente Secreto para a elaboração do argumento central desse ensaio. O protagonista Marcelo/Armando, espetacularmente vivido por Wagner Moura, indicado ao Oscar de melhor ator, é um professor universitário que, pouco a pouco, percebe que é alvo de uma perseguição muito maior do que imaginava inicialmente. Um elemento fundamental do enredo do filme é que a perseguição promovida pelo regime militar não se apresenta de forma escancarada. As forças de segurança do Estado aparecem apenas por meio dos agentes da polícia civil. No entanto, fica nítido que o clima de vigilância e perseguição ultrapassa as esferas de atuação dos instrumentos diretos de repressão da ditadura. 


(...) o cinema brasileiro raramente abordou com a devida ênfase o papel dos empresários nesse processo histórico. Rompendo com esse pacto de silêncio, O agente secreto desloca o foco habitual da narrativa sobre o regime: ao invés de centrar-se na figura do militar, o filme coloca em cena a cumplicidade das elites econômicas e sua atuação no gerenciamento da riqueza nacional — mostrando como as autoridades foram mobilizadas para a realização de seus interesses privados [3].

O protagonista, por sua postura crítica e confrontadora diante de injustiças, preconceitos e dos rumos que a universidade pública perigosamente tomava, passa a ser perseguido por uma rede de poder que revela que o regime instaurado pelos militares não se sustentava sem o apoio incisivo e ativo de setores civis, notadamente, da grande burguesia nacional. Esse consórcio que sequestrou o país em 1º de abril de 1964, encontrava nas instituições de ensino, especialmente as universidades, um campo privilegiado para a disputa ideológica e para o aniquilamento do pensamento crítico. 


O que o filme de Kleber Mendonça Filho projeta como atmosfera de suspense foi uma política de Estado institucionalizada por meio das Assessorias Especiais de Segurança e Informação (AESIs). Criadas para operar dentro das universidades e órgãos de educação, as AESIs funcionavam como o braço capilarizado do Serviço Nacional de Informações (SNI), garantindo que a vigilância fosse uma engrenagem interna da gestão acadêmica. Professores, pesquisadores e estudantes eram fichados, monitorados e, como o protagonista do filme, muitas vezes obrigados ao silenciamento ou à fuga sob o peso de relatórios que transformavam a produção de conhecimento em ameaça à "Segurança Nacional".


Esse controle, contudo, não visava apenas o expurgo de indivíduos considerados "subversivos"; ele era a base para a implementação de um projeto educacional tecnocrático, empresarial e ideologicamente orientado. Através dos acordos MEC-USAID, a ditadura civil-militar buscou reformular a alma das instituições de ensino brasileiras, especialmente as universidades, substituindo o ideal de formação humana e crítica pela lógica do capital humano e do treinamento da força de trabalho para o mercado. O legado desse período para a educação foi a construção de uma estrutura marcada pela precarização do ensino público e pela facilitação da iniciativa privada mercantil, estabelecendo uma dualidade que ainda hoje segrega quem tem direito ao pensar e quem deve ser apenas treinado para obedecer.


O fantasma que persegue o professor Marcelo em 1977 reaparece com vigor no Brasil contemporâneo sob novas roupagens, mas com a mesma essência autoritária. O processo acelerado de militarização de escolas públicas é o exemplo mais flagrante dessa permanência. Ao transpor a hierarquia e a disciplina militar para o chão da escola, o Estado atual reativa a Doutrina de Segurança Nacional, tratando o espaço pedagógico como um território a ser pacificado e o pensamento divergente como uma indisciplina a ser punida. Somam-se a isso as tentativas de cerceamento da liberdade de cátedra e o monitoramento de docentes, por meio dos projetos filhotes do Escola Sem Partido, que ecoam a paranoia das AESIs sob o disfarce de uma suposta neutralidade. O legado macabro de 1964 é uma estrutura viva que, diante da crise da democracia, volta a apresentar a ordem militarizada como solução para as contradições sociais que a própria precarização educacional ajudou a aprofundar.


Educação como resgate da memória contra o esquecimento


Se o cinema nos devolve a imagem do trauma, cabe à educação a tarefa política de transformá-la em consciência histórica. O papel de obras como Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto é o de atuar como dispositivos de memória em um país que, historicamente, negligenciou o acerto de contas com seu passado autoritário. Nesse cenário, a sala de aula deve ser o espaço privilegiado para lidar com o entulho autoritário de 1964, que deve ser identificado e desmontado, permitindo que as novas gerações compreendam que a liberdade é uma conquista arrancada sob o custo de vidas, exílios e clandestinidades.


A defesa da liberdade de cátedra e da autonomia docente, portanto, para além de uma prerrogativa corporativa constitucional dos docentes, é, sobretudo, um valor democrático inegociável. Quando projetos de controle e monitoramento tentam hoje constranger a prática pedagógica, o que está em jogo é a reativação daquela mesma perseguição retratada no cotidiano de Marcelo. O professor, enquanto intelectual orgânico e mediador do conhecimento, é o alvo preferencial do autoritarismo justamente porque sua palavra tem o poder de romper o silêncio e desnaturalizar a ordem imposta. Educar contra o esquecimento significa, portanto, ocupar a escola como um território de disputa, onde a memória da repressão deve ser estudada como uma ferramenta viva de luta contra a militarização da sociedade e o avanço de discursos negacionistas.


Desarmar o passado e lutar pelo futuro


Refletir sobre a ditadura civil-militar através das lentes do cinema nacional é um convite a olhar para o que restou de 1964 em nossas instituições e em nossa cultura política. O agente secreto que assombra o presente não usa mais codinomes ou disfarces; se manifesta na truculência da escola militarizada, na presença ostensiva e intimidatória de militantes e parlamentares da extrema-direita nas universidades e no desinvestimento deliberado da educação pública e na desmoralização das humanidades e no medo que ainda silencia vozes críticas. A história da educação brasileira está intrinsecamente ligada a essas permanências, e ignorá-las é permitir que a semente do autoritarismo continue encontrando solo fértil para germinar.


Nesse sentido, o compromisso ético do cinema de Kléber Mendonça Filho e outros tantos cineastas brasileiros e dos defensores da educação pública é um só: garantir que a compreensão profunda daquela página infeliz da nossa história sirva de vacina para as ameaças contemporâneas. Seguimos com o olhar atento aos fantasmas do passado pela convicção necessária de que o conhecimento é a única luz capaz de dissipar as sombras do autoritarismo. Para que nunca se esqueça, para que nunca mais aconteça.



* Ricardo Normanha é pai, sociólogo, professor e pesquisador. Atualmente é Professor Visitante na Faculdade de Educação da Unicamp e coordenador do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação e Diferenciação Sociocultural (GEPEDISC).


[1] Em 2009, fiz um breve ensaio comparando o filme Pra Frente Brasil e a película argentina A história oficial, que pode ser conferido no link: https://www.marilia.unesp.br/Home/RevistasEletronicas/BaleianaRede/Edicao06/2_As_ditaduras_no_cinema.pdf

[2] Ver mais na análise de Enio Vieira na Revista Bula: https://www.revistabula.com/153680-o-agente-secreto-ainda-estou-aqui-e-os-arquivos-do-mal/

[3] ANDRADE, Erico; KLEIN, Thais. Quando a ditadura empresarial-militar assume o primeiro plano no cinema brasileiro: “O agente secreto”, de Kleber Mendonça Filho. Blog da Boitempo. 22 nov. 2025. Disponível em https://blogdaboitempo.com.br/2025/11/22/quando-a-ditadura-empresarial-militar-assume-o-primeiro-plano-no-cinema-brasileiro-o-agente-secreto-de-kleber-mendonca-filho/.




 
 
 
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