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Resistências afroindigenas: combinamos de não morrer[1]

Por Natu Reis e Pammella Casimiro de Souza*


“Postura, Xamã, eu pedi Postura..”

(Duquesa, em Coisa de Pele)


Cabe iniciar essa conversa, pois assim a propomos, a despeito do convite por um texto para a revista — que leio e indico em diversos contextos —, com a origem da escrita que convida quem lê ao debate, aberto ou privadamente; estamos (n)a disposição. As primeiras palavras, e as últimas, se digitalizam a partir da Zona Norte (ZN) do Rio de Janeiro, ao som de cantores pretos e indígenas no fone de ouvido. A ZN, para quem não conhece, é, sim, como diz Arlindo Cruz, “samba até de manhã, uma ginga em cada andar”, e também é como avisa Ramonzin: “aqui não é Disney, vem mas não vem bobo”. As mãos que assinam estas palavras são afroindígenas, de um corpo cis, de orientação hétero e identidade feminina — dizem[2]. E é pela Baixada Fluminense que as palavras seguem, se inundam, refazem seus caminhos e se tornam meio. A Baixada é cruel, terra de sonhos e memórias. Território que contorna a centralidade do poder e, pelo sacrifício de suas zonas, mantém a roda do ouro negro girando. O bairro que recebe, armazena e distribui o petróleo refinado impõe aos seus moradores o movimento pendular, similarizando o sujeito periférico a um produto ao negar um “meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida”. Nossos corpos como “Ouro Marrom”, como canta Jota.pê, descreve a relação de esperança dada e roubada pelo desenvolvimento seletivo quando nos diz que a “mesma pele, a mesma cor. E sonho, pra vibrar feito tambor. Guiar meu peito”. Contudo, entre o sambaqui e a indústria, insiste em existir a escrita que nasce de Campos Elíseos, um corpo que também é território. Neta de contadoras de história que dão o volume e o tom da cidade de Duque de Caxias, formada em sua maioria por mulheres negras. Sem tempo para perder tempo: “eu vim da baixada / Swing na batida, só os kaysara / Ouvindo Allure Dayo, ela sem nada / Flow originário”.


Dito isso, informo que o debate é sobre organização e agitação de coletivos. Marco aqui serem os meninos (daqui em diante, compreendam que estou me referindo a identidades masculinas cis e trans) indígenas e pretos que me cercam, que motivam e inspiram essa escrita.


Saímos do Novembro Azul[3], também o mês da Consciência Negra. Ora, então o mês em que mais se têm oportunidades de trabalho para homens negros — trabalho remunerado na função que escolhem desempenhar — também se tem campanhas para dialogar presencialmente sobre sua saúde física. Uma saúde que não leva em consideração a intimidade do homem negro, que apresenta uma saúde fragmentada, que desconsidera a saúde mental e emocional, a disponibilidade de tempo, a saúde financeira e o racismo estrutural e estruturante, recentemente reconhecido pelo Supremo Tribunal Federal (STF) como uma situação generalizada, sistêmica e persistente de violação de direitos fundamentais. O mesmo corpo que segue sendo exposto apenas de cueca quando preso, quando morto, e nu quando vendido há alguns séculos. Muitas vezes classificado e sentenciado pela estrutura/forma do seu corpo, pelo jeito de andar, pelo modo de falar… Em campanha. Essa, como as próximas reflexões que traremos, é apenas um exemplo de como não é passiva a agressividade discursiva ao homem negro no cotidiano urbano. “Coisas que tá no ar, mas que não se podem ver / Estranho, como gente de pele clara se chamando de nigga”, disse Djonga[4], rapper mineiro, quando despontou para além das rodas de rima e dos fones de quem se importa em buscar, e chegou naqueles que “precisam” do mainstream para entregar.


“Você que não entendeu a força da palavra coletivo, o alívio de um sorriso, sabendo que o lado astral da matriarca sempre andará contigo”, quando sugere terapia, arte e a dissociação do talento com a droga, Bukola 2 Tey fala com homens negros em uma das músicas mais tocadas de sua época nesses mesmos fones de ouvido que buscam. Bom, nós também ouvimos.


Acordos pretos: coisa de pele


Dona Conceição Evaristo, Professora Doutora e mais velha de todos nós que fazemos ciência na academia a partir das lógicas de becos, vielas, dores e(m) sorrisos de matriarcas, abriu caminhos para que Vítor, menino estudante de escola pública de Minas Gerais, nomeasse suas elaborações. As Escrevivências — poéticas, método, metodologia e vasto material discursivo de análise preta — foram descritas como “escrita de nós” por um menino pretinho que se viu nas escritas da mais velha, que se viu na descrição do porquê dessas escritas, pela mais velha. Vítor se inscreveu em Evaristo, como Evaristo inscreveu memórias pretas de organização e reterritorialização epistêmica[5] na academia, sem a perda da poética.


É nos caminhos de Evaristo que lemos e compreendemos como a Fórmula Mágica da Paz[6] chamou para o diálogo masculinidades negras das territorialidades faveladas, dos guetos, nos becos. Essas identidades que, até ali, se discutiam sem ter cuidado[7], se encontram com os aprendizados da identidade territorial formada por subjetividades pretas e indígenas:


“A minha vida é aqui e eu não preciso sair

É muito fácil fugir mas eu não vou,

Não vou trair quem eu fui, quem eu sou

Eu gosto de onde eu tô e de onde eu vim, ensinamento da favela foi muito bom pra mim”.


E, nos parece, teriam respondido Kandu e Kaê, originários Puri e Guajajara nascidos no Rio de Janeiro. Em “Por isso eles querem que nós se mate”, Kandu enuncia os discursos de continuidade do silenciamento não apenas da identidade cultural, mas das relações a ela pertencentes, e, junto a Kaê, se reafirmam: “Os crias do crias, original daqui”. A convocação dos dois ecoa os Racionais na manutenção do território e da cultura que o organiza, apesar do Estado que o viola. Não se romantiza a escassez ou se mascara a violência[8], mas se enaltece a continuidade geracional dos acordos pretos, indígenas e afroindígenas que trouxeram até aqui os ensinamentos de favela, o astral da matriarca e o fogo que purifica a luta. Vale lembrar que, ainda assim, não se fala em purismo, vide a própria relação interétnica da dupla, mas sim na manutenção da cultura.


O que Barreto da Silva e Reis (2023, p. 178), em seu trabalho sobre os Saberes Escrevividos das masculinidades pretas, apontam é função com base em “interdependência, (co)responsabilidade e equilíbrio” entre quem se relaciona com essas masculinidades. Os autores chamam atenção para os quilombos históricos, não das narrativas descritas por povos brancos em suas formas de registro, mas pelos povos aliançados em seus próprios formatos. Em especial, Camugerê, o quilombo em que Aidê encontra abrigo, quilombo afroindígena como o gerido por Thereza de Benguela, com as práxis de quilombagem pelo cuidado que Clóvis Moura, Beatriz Nascimento, Lélia Gonzalez e Abdias Nascimento tanto descreveram, inscreveram e traduziram para os povos que não a vivenciaram geracionalmente.


É nesse sentido que lembramos um muito saudoso Professor Doutor Andrelino Campos em sua obra Do Quilombo à Favela: A Produção do “Espaço Criminalizado” no Rio de Janeiro (grifo do autor), para responder a Kaê Guajajara, cria da Favela da Maré: “A natureza nos move, pra tomar tudo de novo.” Vamos?


Ensinar meus camaradas, Yayá Massemba vive!: somos o agora[9], sem perder a memória


Malcom Ferdinand, intelectual originário de vila na Martinica, em Uma Ecologia Decolonial: pensar a partir do mundo caribenho, encaminha povos que desconhecem acordos comunitários à conclusão a que Nêgo Bispo — nosso avô espiritual de nós todos, quilombola do Piauí — já havia chegado e repetido tantas vezes: é da união de quilombos, aldeias, beiras de rio e outros espaços de modos criativos e integrados de viver que virão as respostas para o sistema que nos foi imposto, a todos. E sistema esse que hoje chega em qualquer um desses espaços, até mesmo os mais remotos, inegavelmente. Via discurso, as aldeias que se protegeram até aqui e protegeram as florestas mutuamente são elas as “isoladas”. “Povos isolados” porque o referencial é sempre o centro de acúmulo do capital.


O fazer político preto, indígena e aliançado foi o que manteve até hoje os povos e as culturas que ainda alimentam a terra, a organização comunitária e suas contribuições para sistemas políticos almejados por quem luta coletivamente pela vida. Entretanto, a política desses povos é, como Limulja (2019) descreve em sua parceria com os indígenas Yanomamis, via outros meios, linguagens e entendimentos de mundo. Como classificar ou categorizar politicamente qualquer função social em uma cultura contra-hegemônica, que escolhe ver a vida para além do controle do capital e que se orienta por sonhos? Se os sonhos são a linguagem do inconsciente, como a Psicanálise há tanto tempo aponta, e são tão escassos na urbe moderna — seja por excesso de medicalização, seja por falta de tempo de sono de qualidade ou de reflexão e memória ao despertar —, sequer se pode aprender a linguagem para almejar uma tradução.


Giovana Xavier, Professora Doutora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, pesquisadora negra e yoguini, apresenta a necessidade da invenção de uma comunidade científica para que mulheres negras possam se reconhecer produtoras de conhecimento nos espaços brancos de saber. Assim, as traduções mais honestas nos parecem acontecer: quem se dispõe a aprender a linguagem do outro se reinventa nessa linguagem para então se apresentar. O que Poze, funkeiro cria do CPX — o Complexo do Alemão no Rio de Janeiro —, mostra não acontecer nas leituras dos meninos dali. Em “A Cara do Crime”, Poze convida artistas de várias favelas do estado — todos meninos pretos e pardos, lidos como criminosos em algum momento de suas vidas — para narrarem suas leituras e os porquês. O que Poze faz exemplifica os medos de Audre Lorde, feminista negra, em Irmã Outsider: Ensaios e Conferências, que assume e muitas vezes repete ao mencionar seu medo por criar um menino preto: a morte por leituras brancas do corpo masculino preto. E mais uma vez vemos os reflexos dos entraves para o sonhar do corpo negro, até mesmo antes de existir, onde o medo por criar um menino preto recai sobre o desejo de maternar de mulheres pretas. Genilson Leite, pesquisador pernambucano, Natu Reis e Ivan Pimentel, pesquisadores do Rio de Janeiro, se juntam para discutir como, sendo a “Cara do Crime”, meninos pretos podem se relacionar — com familiares, amigos e amores. Vendo o Podem?


Então, é por mais Arlindos, Bukolas e Vítors[10] que seguimos Dona Conceição, Kaê e Audre, e convidamos quem nos lê a conversar, a responder este texto, a nos convidar ao movimento e, principalmente, a se letrar para convidar meninos pretos à mesa. A aprender a ver Tias Euálias dançarem inspirando poetas da geração seguinte[11]; a sorrirem matriarcas protegendo suas proles — e as de outras[12]; a abrirem caminhos a meninos que chegam. Nós, mulheres preta e afroindígena, componentes de coletivos aliançados em que gêneros e gerações não disputam entre si, em que se chega junto a espaços do fazer, convidamos a uma organização que vá na contramão do enquadro[13], isto é, que se distancie do discurso neoliberal em seus mais minuciosos fazeres. Queremos, com isso, informar que teorias rasas, brancas ou distantes da realidade comunitária não contemplarão esse letramento de coletividade. O convite é pela práxis de Yayá Massemba[14]: se estamos desorganizados, vamos aprender para ensinar aos camaradas. E que nunca esqueçamos — então, pra quem não lembra: nossos camaradas são meninos pretos e “de pele marrom, brinco de arara…”[15].


IÊ, Camará!


Dedicamos esse texto ao @parentalidade_preta e seus esforços de organização e(m) cura coletiva.

*Natu Reis. Capoeira. Bacharel em Educação Física (UFRJ), concluindo o doutorado em Geografia (UERJ). Co-fundou e coordena o @premestradoedoutorado, iniciativa social para pessoas indígenas, faveladas, quilombolas e pretas. Atua pelo Coletivo AYO em escolas públicas, rodas culturais e festivais de favelas na Zona Norte do Rio de Janeiro.


Pammella Casimiro de Duque de Caxias - Baixada Fluminense, cientista ambiental e doutoranda em geografia. Co-fundadora e coordenadora do grupo de estudo voltado para a pós-graduação (@premestradoedoutorado), construindo ciência através do afeto. Pesquisadora e educadora socioambiental, dedica-se aos estudos sobre racismo ambiental, territórios em sacrifício e geografias negras.


Referências:


1-  Referência a Conceição Evaristo.

2- Em Reis (2021), na dissertação, debato as leituras urbanas que vivemos e, por consequência, capitalistas, de mim e do que fazem das letras os que vem de onde eu venho ou vivem o que vivemos. Com isso, informamos à academia que não pretendemos ser entendidas por quem não pisa um chão descalço. Aqui, convidamos: se viável, leia este de pés no chão. Se inviável, se questione o porquê.

3- Mês em que mundialmente se busca conscientizar pessoas com próstata sobre os riscos do câncer. Mês em que o SUS dedica suas campanhas a convidar homens cis de locais periféricos a irem aos postos, com dias de prevenção e educação em saúde dedicados a eles. Ver mais em  https://mundonegro.inf.br/novembro-azulmuito-alem-do-cancer-de-prostata/.

4- Que ainda cito, apesar das recentes assunções porque, tal qual todo homem preto retinto que ascende ou não, muito mais sujeito que eu está às violências discursivas. Citamos, mas não sem essa ressalva.

5- A retomada epistêmica é a busca pela reocupação de espaços de produção de conhecimento por pessoas pretas, indígenas e de culturas tradicionais. Isso de forma alguma quer dizer que não se produziram conhecimentos até aqui por esses povos, mas sim que os povos brancos não os reconheceram e agora, com os processos de retomada, precisam conhecer e com eles se relacionar em seus espaços de produção, como as universidades e centros de estudos.

6-  Imprescindível letramento territorial dos Racionais de 1997.

7- Como em Coisa de Pele, de Xamã e Duquesa ou em Sei Lá, de Emicida, o relacionamento afetivo preto passa pelo desencontro do cuidado na memória antes do reencontro do cuidar na angústia, na ausência estrutural. Assim se dá também em relacionamentos homoafetivos a partir de  masculinidades pretas, vide Rico Dalasam inventando o que sabe sobre o amor e, constantemente, se retirando de relacionamentos inter-raciais pelas questões de classe que exacerbam as dores do racismo. Ver mais em Braile e Guia de um Amor Cego, ambas composições de Rico.

8- Violência essa fruto do Estado e de como este se organizou até aqui, reproduzida em e não por corpos pretos e pardos, atentemo-nos.

9- Uma referência à duas referências muito caras, Elza Soares e Black Alien, o Gustavo, nosso eterno menino de Nikity.

10- Criança que descreve as Escrevivências de Conceição Evaristo, hoje imortalizadas, como “escrita de nós”.

11- Meu Lugar, Arlindo Cruz.

12- Pandora, verso de Bukola 2 Tey.

13- Ver mais em Bom Canhoto, composição de Raphão Alaafin, rapper de Osasco.

14- Referência à canção de Maria Bethânia que, por sua criação e vivência na cultura afroindígena de terreiro, canta acordos e ritos internos, que ecoamos em nosso presente convite.

15- Kandu Puri em Amor Originário.









 
 
 

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