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Pelo que lutar na educação em 2026?

Por Fátima Machado[1]


Estamos no primeiro mês de 2026 (diga-se de passagem, ano eleitoral). Começo(s) de ciclos costumam nos levar para (novas) projeções e planejamentos. Li um artigo recentemente que versava sobre o que desejar para a educação este ano e não consegui conter um tanto de incômodo, pois ao pensar sobre meus desejos para o campo, fui catapultada imediatamente para um duelo interno de resistir à sedução de um voluntarismo idealista e de não sucumbir a um determinismo reprodutivista. E assim chego ao título deste escrito: “Pelo que lutar na educação em 2026?”. Não é sobre aniquilar o desejo, mas reconhecer que a luta se constitui na relação dialética entre o otimismo da vontade e o pessimismo da razão, retomando o aforismo gramsciano[2]. 


Para que o otimismo da vontade não se confunda com ilusões e ingenuidades nem com uma espécie de apelação moral abstrata, o pessimismo da razão está no reconhecimento dos limites objetivos da sociabilidade capitalista. É nesse terreno que se evidencia que somos nós, a classe trabalhadora,  a única portadora de interesses verdadeiramente revolucionários, pois nossa possibilidade de emancipação está indissociavelmente ligada à superação das próprias relações sociais de produção que nos exploram.


Localizando a discussão no campo da educação, cabe-nos a percepção de que outro modo de organizar a tríade formação-trabalho-carreira docente e de constituir a oferta de uma educação pública de qualidade e de formulações curriculares democráticas não emergirá de voluntarismos pueris, nem de alavancadas idealistas descoladas da realidade material. Precisamos nos apegar à concepção materialista da história, à compreensão crítica e histórico-social da luta de classes e ao reconhecimento do trabalho como categoria fundante da produção da vida social.


É, precisamente, a partir de uma análise da concretude, da totalidade e do reconhecimento da força social objetiva da classe trabalhadora que o otimismo da vontade ganha densidade política. É assim que devemos orientar a nossa projeção para o ano de 2026: recusando nos alimentar de promessas abstratas e partindo das contradições reais do capitalismo e das lutas que delas irrompem. 


Após um 2025 marcado por uma ardente precarização do trabalho e da carreira docente e pela mercadorização-mercantilização desenfreada do setor (que se alastra da educação básica ao ensino superior), é importante recusar conciliações reformistas e saídas individualizantes que possam reforçar a ordem existente. O caminho vem sendo trilhado por movimentos sindicais, associações e grupos que movimentam a luta organizada dos docentes e dos/das estudantes e deixamos aqui a convocação para seguirmos e nos juntarmos para mais um fôlego revolucionário.


O ano começou (in)tenso: (1) reverbera, do ano prévio, o corte de orçamento discricionário das universidades federais[3]; (2) deparamos com o escândalo do atraso no calendário do Novo FUNDEB e sem aprovação, no prazo legal, do ICMS Educacional no Rio de Janeiro sob gestão de Cláudio Castro que paga um dos piores salários de professor do país[4]; (3) proliferam os anúncios de vagas de contratações temporárias em diversas secretárias estaduais e municipais, avançando na precarização; (4) o município do Rio de Janeiro puniu retirando o dito 14º salário dos professores que aderiram à greve contra a PLC 186 que aumentava a carga horária sem o reajuste salarial devido e proporcional[5]. Esses são só alguns exemplos que nos apontam para a urgência de lutar e resistir para maiores avanços e conquistas de caráter histórico, como o novo piso salarial nacional do magistério da educação básica (reajustado em 5,4%, passando de R$ 4.867,77 para R$ 5.130,63 para a jornada de 40 horas semanais). O novo valor foi estabelecido pela Medida Provisória nº 1.334/2026[6], assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e publicada no Diário Oficial da União, com validade imediata, embora ainda dependa de confirmação do Congresso Nacional.


Então, retomo a pergunta que enveredou o presente texto: pelo que seguir lutando em 2026? Na educação, são múltiplas as frentes, mas coloco aqui, resumidamente, algumas pautas centrais: (1) precisamos lutar pela proteção e disputa do fundo público para a educação; (2) é vital buscar o enfrentamento estrutural dos processos de financeirização na educação; (3) vamos seguir buscando a recomposição do papel histórico do Estado; o reconhecimento e a valorização do conhecimento, da pesquisa, do trabalho docente e da formação humana integral; (4) é preciso continuar monitorando a questão do Piso Nacional que é um instrumento importante na mobilização e na resistência quando se trata da carreira e de condições dignas de trabalho para os docentes… As reticências marcam mesmo a não completude dessa brevíssima lista e abre o convite para que nossos leitores e leitoras contribuam e deem corpo para essa pauta. 


Sigamos atentos e atentas (e fortes!) e nos organizemos na luta por um ano melhor (também) na educação. Aos professores, professoras, alunos e alunas: acompanhem os calendários de lutas e mobilizações, se articulem e se acheguem! Mesmo vivendo em tempos sombrios, que possamos nos blindar de “cair [...] naqueles estados de espírito – vulgares e banais – a que se chamam pessimismo e otimismo” para atingir um “estado de espírito sintetiza esses dois sentimentos e os supera” nos tornando “pessimista[s] com a inteligência mas otimista[s] com a vontade” (GRAMSCI, 2005, p. 382)[7].



[1] Fátima Machado é mãe, doutoranda do Programa de Pós-graduação em Educação da UERJ e Mestre em Linguística pela mesma instituição. Pesquisa os usos das tecnologias na educação, políticas educacionais e curriculares com ênfase na díade trabalho-formação docente. 


[2] Antonio Gramsci retoma o aforismo “pessimismo da razão, otimismo da vontade” ao referir-se ao literato francês Romain Rolland, sintetizando, segundo o autor, duas notas fundamentais da concepção socialista do processo revolucionário (GRAMSCI, L’Ordine Nuovo, n. 43, p. 487–492).



[4] Essa omissão levou o governo federal a excluir os 92 municípios fluminenses da complementação VAAR, uma das inovações do Novo FUNDEB, voltada ao incentivo à melhoria da gestão educacional e à redução das desigualdades. A sanção, válida a partir de 2026, representa uma perda estimada de R$ 117 milhões, podendo chegar a R$ 700 milhões em 2026. 



[6]  O reajuste representa ganho real de 1,5% acima da inflação de 2025, medida pelo INPC, e prevê recomposição anual do piso. Veja mais em: https://www.andes.org.br/conteudos/noticia/com-reajuste-de-5-4-piso-do-magisterio-passa-para-r-5-1-mil-em-20261


[7] GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere: Volume 3: Maquiavel; Notas sobre o Estado e a política. Tradução de Carlos Nelson Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005. 


 
 
 
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