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Eleições decidem o clima?

Por William Poiato


Na última campanha eleitoral, um candidato pode ter subido ao palanque com a promessa de “destravar o desenvolvimento sustentável”. Atrás dele, quem sabe, o telão mostrava florestas, painéis solares e crianças sorrindo. A poucos quilômetros dali, porém, uma comunidade ribeirinha pode ter assistido ao rio baixar mais cedo que o normal, enquanto caminhões carregados de soja cruzavam a estrada que, por uma promessa ainda mais antiga, deve estar recém-asfaltada. A cena não é exceção: ela resume o paradoxo do nosso tempo. O clima aparece nos discursos eleitorais como imagem, mas seus efeitos materiais seguem sendo decididos longe das urnas — ou, ao menos, não apenas nelas.


A pergunta “eleições decidem o clima?” parece simples, mas carrega uma armadilha. Ela supõe que o problema climático seja, antes de tudo, uma escolha política formal, resolvível pelo voto, por programas de governo ou pela alternância de partidos no poder.


A história recente, porém, mostra algo mais incômodo: eleições importam, mas operam dentro de limites estruturais que frequentemente neutralizam ou desviam a promessa ambiental. Para entender esse impasse, é preciso deslocar o olhar do marketing verde para as engrenagens profundas do Estado, do território e da democracia.


O Estado provavelmente nunca foi um árbitro neutro do interesse comum. Ao contrário, atua como uma forma histórica de dominação, inseparável da propriedade privada e da divisão de classes. Quando o Estado aparece como instância racional que “decide” políticas ambientais, ele o faz já atravessado por interesses materiais que não se apresentam como tais. O discurso ambiental, nesse sentido, pode funcionar como véu: fala-se em futuro verde enquanto se garantem, no presente, as condições da acumulação e do lucro.


Essa crítica é especialmente atual quando observamos como a agenda climática é incorporada aos processos eleitorais. Promessas de “transição energética”, “economia verde” ou “desenvolvimento sustentável” raramente questionam a base material que produz o colapso ambiental. O Estado administra o conflito climático como administra outros conflitos sociais: regulando danos, compensando perdas, criando mercados de carbono — mas preservando intacta a lógica que transforma natureza em recurso e território em mercadoria. A democracia liberal, aqui, mostra seu limite estrutural: ela permite escolher gestores diferentes para a mesma máquina.


Há um descompasso entre emancipação política e emancipação real. Votar em programas ambientais não dissolve a separação entre sociedade e Estado, nem devolve às populações o controle sobre as condições materiais de sua existência. A “verdadeira democracia”, entendida como autogoverno e autodeterminação coletiva, não cabe nas formas institucionais que reduzem a política a ciclos eleitorais.


O clima, enquanto expressão extrema da crise do metabolismo entre sociedade e natureza, escancara esse limite: não se trata apenas de decidir políticas, mas de transformar a forma social que decide.


Sendo mais preciso, o clima não é apenas um fenômeno natural afetado por decisões políticas abstratas. Ele se materializa no território, no espaço vivido, como resultado de sistemas de objetos — construções — e sistemas de ações — ideias. Rodovias, hidrelétricas, monoculturas, barragens, cidades impermeabilizadas: são técnicas que “empiricizam” o tempo e produzem um espaço vulnerável a secas, enchentes e colapsos.


Quando um governo é eleito prometendo crescimento a qualquer custo, ele não decide apenas um modelo econômico; ele redefine, concretamente, o espaço onde certos grupos irão viver — ou morrer.


As eleições, portanto, não decidem o clima no sentido imediato, mas decidem quais sistemas técnicos e quais usos do território serão priorizados.


E essa decisão não é distribuída igualmente. A crise climática se territorializa de forma desigual, aprofundando aquilo que o debate sobre racismo ambiental já revelou: os custos ambientais do desenvolvimento recaem sistematicamente sobre populações negras, indígenas, ribeirinhas, quilombolas e periféricas. Não é o “clima” que escolhe suas vítimas; é uma ordem política e espacial que naturaliza o sacrifício de certos territórios.


A questão não é apenas quem governa, mas para quem e a partir de qual concepção de território.


Isso não significa desprezar as eleições. Em contextos autoritários ou negacionistas, elas podem significar a diferença entre proteção mínima e devastação acelerada. Mas tomar o voto como solução suficiente é aceitar uma política de baixa intensidade para uma crise de alta complexidade.


Quando o clima entra na campanha como promessa abstrata, ele sai do governo como planilha de custos, licença ambiental flexibilizada ou crédito subsidiado ao agronegócio “eficiente”. O conflito real — entre modos de vida e projetos de acumulação — permanece fora da cena eleitoral.


O deslocamento político necessário é reconhecer que o clima não é um tema setorial, mas um critério de julgamento da própria democracia.


Quem decide sobre a água, a terra, a energia e o ar? Quem participa dessas decisões? Quem paga o preço quando elas falham?


Enquanto essas perguntas forem respondidas apenas por tecnocratas, mercados ou coalizões eleitorais capturadas por interesses econômicos, o resultado será previsível: eleições que falam de futuro, mas reproduzem um presente insustentável.


Talvez a pergunta correta não seja se as eleições decidem o clima, mas se estamos dispostos a democratizar as decisões que produzem o clima que vivemos.


Isso implica ir além do voto, tensionar o Estado, disputar o uso do território e reconstruir a política como prática coletiva enraizada no espaço. Caso contrário, seguiremos elegendo governos que prometem salvar o planeta enquanto administram, com eficiência crescente, as condições de sua perda.


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Referências:


HERCULANO, Selene; PACHECO, Tania. Racismo ambiental, o que é isso. Rio de Janeiro: Projeto Brasil Sustentável e Democrático / FASE, 2006.


HERCULANO, Selene. O clamor por justiça ambiental e contra o racismo ambiental. Revista de Gestão Integrada em Saúde do Trabalho e Meio Ambiente, v. 3, n. 1, p. 1–20, 2008

POGREBINSCHI, Thamy. Jovem Marx, nova teoria política. DADOS – Revista de Ciências Sociais, Rio de Janeiro, 2006.


ROCHA, Jiuliani Santos; VASCONCELOS, Priscila Elise Alves. Racismo ambiental. Revista Jurídica Direito, Sociedade e Justiça, v. 5, n. 6, 2018.


SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço: Técnica e Tempo, Razão e Emoção. 4. ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2009.


TIBLE, Jean. Marx contra o Estado. Revista Brasileira de Ciência Política, Brasília, p. 53–87, 2014.




 
 
 

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