[T05E06] Comunidades, os limites da Lei e outras formas de luta
- Marcos Morcego
- há 6 minutos
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Por Marcos Morcego*
“A base fundamental dos movimentos mudou. A relação entre a profissionalização e os movimentos sociais mudou. A forma de politização mudou. O papel da cultura e a globalização da produção cultural mudaram. Eu não sei como falar sobre essa nova realidade, a não ser encorajando as pessoas a experimentar [...]. Eu sempre comento que os jovens hoje reverenciar em demasia as organizações mais antigas, a dos veteranos, e são meticulosos demais em seu desejo de depender de modelos de atuação. Todos querem alguma garantia de que aquilo que fazem terá resultados palpáveis. Eu acho que a melhor maneira de entender o que deve funcionar é simplesmente fazê-lo, a despeito dos erros potenciais que se pode cometer. Deve-se estar disposto a cometer erros. Na verdade, acho que os erros ajudam a produzir novos modos de organização - os modos que unem as pessoas e provocam um avanço na luta pela paz e pela justiça social”. Angela Davis
Hoje vamos para a última entrevista presente no livro A democracia da abolição: para além do império, das prisões e da tortura [1], abordando a violência, as torturas e a coerção sexual, pensando toda a estrutura histórica na qual se monta a prisão. Lembrando que são entrevistas realizadas por Eduardo Mendietta à grandiosa Angela Davis, mas sempre que possível ocultamos as perguntas para simplificação e coesão.
Sou Marcos Morcego, comunicador político, aqui na Caverna do Morcego, e esse é um projeto que atravessou minha vida, tanto enquanto militância, quanto em trampos com editoras que apareceram, geralmente também vinculadas às lutas. Além desse quadro, aqui no nosso canal também temos o projeto de Leitura e Discussão, que são vídeos semanais, lendo e disponibilizando o pdf. Também temos nosso podcast: Caverna do Morcego, disponível em quase todos esses aplicativos que dá pra ouvir coisa.
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Agora os agradecimentos:
Autonomia Literária, em que temos o cupom #MorcegonaAutonomia rolando, que garante 20% de desconto em todos os produtos do site [2];
Clio Operária, nossa revista maravilhosa, em que produzo artigos e sou editor e que conta com uma equipe muito pesada [3]; Contando com uma coisa muito especial, agora os roteiros da nossa série sobre Lei de Drogas, Encarceramento em Massa e Violência policial, serão publicados no nosso site eihn!?
E Editora Terra Sem Amos, editora pela qual publiquei meu livro: Por uma implosão da sociologia [4]. Lembrando que todo nosso roteiro será disponibilizado no site da Clio Operária.
No episódio de hoje, então, nos despedimos da militante revolucionária, Angela Davis, a partir de uma entrevista que recebeu o título de: resistência, linguagem e lei. É um capítulo que particularmente acho crucial, amarra algumas noções que remetem à questão do sistema carcerário, ao mesmo tempo que propõe questionamentos e breves autocríticas que meio que passam o bastão, como foi a abertura desse vídeo, para que a gente leve nossas práticas para o nível exigido na própria realidade.
O ponto de partida é o próprio aprisionamento da Angela Davis, e como esse momento impactou na perspectiva dela acerca do papel desempenhado pelas prisões na reprodução do racismo e na repressão política. Lembrando que ela esteve em várias lutas por libertação: do guerrilheiro, militante e político, Nelson Mandela; de Lolita Lebrón, nacionalista porto-riquenha; Huey P. Newton e Ericka Huggins, ambos do Partido dos Panteras Negras. “A causa imediata da minha prisão foi o envolvimento com o episódio envolvendo George Jackson e os irmãos Soledad”. E as trocas de cartas com o George Jackson foram fundamentais para esse aprofundamento e para a relação da autora de entender “a prisão como uma instituição”. Só para situar, ela é presa em outubro de 1970 e só ganha sua liberdade total em junho de 1972.
O que fortalece a libertação da autora e militante é o que sempre funcionou: “o ativismo nacional e global muito difundido”. Ela diz sobre os atletas, como o irmão, que obviamente teve a carreira afetada, mas também que “prisioneiros do mundo inteiro me escreviam para expressar sua solidariedade, mesmo sob o risco de punição”. Mas, no final de sua resposta, a autora consegue dar um destaque muito importante, para uma fusão de indivíduos, ou seja, para a criação de comunidades, que ainda hoje é um desafio, “passando por cima de todas as diferenças, facções e fronteiras - raciais, sociais, políticas e geográficas -, foi extraordinária”.
Durante a guerra do Vietnã, que culmina na derrota sofrida pelos EUA, houve uma enorme tentativa de equilibrar as coisas internamente, saídas da desestabilização das passeatas puxadas pelo Martin Luther King Jr [5], mas aparecem diversos setores racializados (como Malcolm X; Stokeley Carmichael; os Panteras Negras; O Poder marrom; O poder amarelo; o poder branco e o poder vermelho [6]), carregando ideologias que peitavam a branquitude associada ao capitalismo, mascarado sob o verniz da democracia e da liberdade enquanto violentava sua própria população e avançava sobre a América Latina [7], mas também na já referida guerra do Vietnã.
Tudo isso, porque Angela Davis faz questão de pontuar que “obviamente, S.W.A.T é hoje um termo familiar, mas a primeira ação de um grupo paramilitar ligado à força policial local foi esse ataque contra os escritórios dos Panteras Negras”. Era a lógica militar sendo aplicada internamente, o medo da insurreição interna, a segregação e os grupos nazistas como a ku klux klan não eram suficientes, modernizam-se as forças militares internas. “Portanto, falamos em derrotar o exército norte-americano no Vietnã e derrotar a polícia e outras “forças de ocupação” em casa. Nas comunidades ativistas negras, nas comunidades ativistas latinas e especialmente nas comunidades ativistas asiático-americanas havia uma sensação dolorosa da agressão no Vietnã conectada profundamente com o aumento da repressão contra as lutas domésticas”. Essa é a linha cruzada por King, a defesa da retirada das tropas norte-americanas e a maior intensidade das passeatas negras, que faz com que seja armada, finalmente, sua morte. Assim como a perseguição ao Malcolm X e a tentativa de desestabilizar todos os países que ficavam ao redor dos EUA, a defesa do domo de ouro não nasce com Trump, é o destino manifesto se modernizando e se transformando em uma mescla de lógica de permanência colonial, com o imperialismo.
E aí começam as críticas, o McCarthy, para a autora, e sua política anti-imigrantes tem similaridades profundas com a guerra fria, ou seja, com o anti-comunismo; que também se reflete hoje na política trumpista, e de certa maneira, não esteve fora de nenhum presidente. Nem os legisladores negros, após o 11 de setembro, tiveram peito para defender os interesses dos direitos humanos e os “afro-americanos” que eles defendiam, apesar de falarem que por princípio defendiam os imigrantes, mas todos, exceto a Barbara Lee, votaram contra os imigrantes. “Lamento ter de dizer isso, mas essas são as características essenciais do fascismo”.
Mesmo com, em 2003, milhões de pessoas indo para a rua, Bush simplesmente ignorou o que estava acontecendo. Então também precisamos pensar quais serão nossas ações e que medidas tomaremos. E aí, quando não são guerras fora, forma-se o “complexo industrial-prisional”, nas palavras de Angela Davis, “o crescimento populacional em presídios domésticos, o aparecimento de novas indústrias dependentes desse crescimento, o remanejamento de velhas indústrias para acomodar e lucrar com o aprisionamento, a expansão de centros de detenção para os imigrantes e o uso de presídios militares como arma principal na suposta guerra contra o terror, a articulação da retórica anticrime com a retórica anticomunismo”. E é nisso que temos “a trajetória por meio da qual a produção militar tornou-se central para a economia norte-americana”.
Não contente, os EUA exportam prisões para a África do Sul, para a Turquia, enfim, “aprisionamento doméstico, aprisionamento militar, detenção dos imigrantes. Em todos os três locais, a coerção sexual serve como uma técnica comprovada de disciplina e poder”. No fim, existe aquilo que devemos recorrer que está no âmbito da lei, mas ela está muito acima de nós. Diz a Angela Davis, “não ser se estou disposta a conferir tanto poder à lei. Nos exemplos em que houve vitórias muito importantes, como no caso de prisioneiros norte-americanos, essas vitórias se deram, na maioria das vezes, acima da lei [...]. A lei não opera no vácuo. Sim, dependemos dela quando pode ser usada para cumprir o que chamamos de objetivos progressistas, mas, por si só, ela é impotente. A lei adquire seu poder do consenso ideológico”. E por isso, um “trabalho contra as desigualdades de raça e classe contra a repressão generalizada produzida pela prisão doméstica a reenquadrar seu trabalho antiprisão, a fim de lidar com e se opor às atrocidades em curso em centros de detenção controlados pelos EUA no Afeganistão, no Iraque e na baía de Guantánamo”.
O sistema, então, cria os problemas: “pobreza, falta de moradia, de saúde e de educação”, e trata tudo a partir de terrorismo, jogando “as pessoas que sofrem desses problemas na prisão”. Então, é, segundo Angela Davis, “um terrorismo de Estado”, mas é política, é estrutura, não é aleatório. Mas enquanto o Estado faz isso, ele forja o terrorista como o “outro”, o “inimigo” contemporâneo. A retórica, as ansiedades resultantes e as estratégias de dispersão produzidas pelo posicionamento da figura do terrorista são muito semelhantes à produção do criminoso como uma ameaça difusa e dependem dessa produção de formas muito concretas”.
É assim que racismo e anticomunismo se fundem, como as ameaças a Martin Luther King Jr, as frequentes incursões nos países da América Latina, o discurso sobre narcotráfico e liberdade. “O anticomunismo possibilitou a resistência aos direitos civis numa miríade de formas e vice-versa; o racismo possibilitou o alastramento do anticomunismo. Em outras palavras, o racismo tem desempenhado um papel decisivo na produção ideológica do comunista, do criminoso e do terrorista”. E por isso as nossas alianças vão ser, e são “fundamentais para a criação de redes de resistência”, como é a expressão da solidariedade internacional com a causa Palestina e as diversas formas de apoiar e quebrar o cerco feito pelo genocídio que é promovido pela união, principalmente dos Estados Unidos com Israel.
Isso se espalha de diversas formas, Angela Davis faz questão de lembrar que “a prisão militar em Guantánamo foi empregada como o único centro de detenção do mundo para refugiados HIV positivos”. Em 2025, a smart sampa, ideia bizarra de Ricardo Nunes, prefeito de São Paulo, com uma empresa de tecnologia para espalhar câmeras no auxílio da busca por pessoas com “problemas na justiça”, uma medida de vigilância brutal, estava sendo utilizada para perseguir e vigiar pacientes que vivem com HIV [8].
O que temos, e aqui concordando com a militante, é o fascismo, numa estrutura chamada democrática, nos EUA, no Brasil, no genocídio palestino. “Como você pode descrever a tortura, a negligência e a depravação cometidas contra pessoas presas simplesmente por calhar de estar no lugar errado na hora errada?”. E ainda mais, por serem, a partir de uma estrutura de acumulação, opressão, repressão e exploração, racializadas. Não são elementos suspensos no ar, mas é um direcionamento que se beneficia da engrenagem política.
Temos, e vemos isso, um rebaixamento de discussão [9], beneficiando a manutenção do sistema, e mais ainda a extrema-direita, em que as escolhas se tornam sim ou não, se a pergunta é apoiar ou não o terroriso, “e, se você não aprova o terrorismo, então você deve ser contra ele”. Continua nossa entrevistada, nossa não, haha, do Eduardo, dizendo que “a simplificação da retórica política é, em parte, responsável pela facilidade com que posições extremistas [e da extrema-direita mais especificamente, beneficiadas pelo status quo] são expressas e adotadas como normais”. Tornar mais complexo, dar profundidade à realidade, ao discurso, às posições, continua sendo uma tarefa.
Após o 11 de setembro, com a ameaça de Bush a Osama Bin Laden, cria-se uma imagem alvo, alimentam o imaginário social, como é feito aos comunistas, negros, indígenas, amarelos, marrons. “Esse racismo faz parte do imaginário coletivo”, mas não brota do nada. “Ele convida as pessoas a se envolverem num certo tipo de regressão, de modo que as posições políticas se baseiam mais no entretenimento passivo que as pessoas experimentam do que no comprometimento informado e no envolvimento ativo com as questões”.
Numa sociedade acelerada, de sobreposição de informações, de apagamento da memória e da história, “há uma falta de paciência. é difícil encorajar as pessoas a refletir sobre lutas prolongadas, movimentos prolongados que exigem cuidadosas intervenções organizacionais estratégicas que nem sempre dependem de nossa capacidade de mobilizar manifestações”. Mestre Joelson falou sobre isso nas diversas vezes que tive a oportunidade de conversar, o plantio no Assentamento Terra Vista, o plantio de água, a terra do bem-virá, é para daqui 3 mil anos. “Parece-me - continua Angela Davis - que a mobilização substituiu a organização, de forma que no momento atual, quando pensamos em organizar movimento, pensamos em trazer multidões às ruas”. Para quem acompanhou nossa leitura de Redes e Ruas, livro de Paolo Gerbaudo [10], sabe que a tomada de ruas é uma parte, uma tática, de um processo que envolve muitas outras coisas, e não podemos ter medo de se aprofundar e se enraizar.
A manifestação, para Angela Davis, é a hora de “demonstrar o poder potencial dos movimentos”. E encerraremos esse episódio pegando quase todo o final dessa entrevista dela: “Movimentos em curso, em certos momentos estratégicos, precisam mobilizar e tornar visível qualquer pessoa que seja tocada por um apelo à justiça, igualdade e paz. Nos dias de hoje nos inclinamos a pensar nesse processo de tornar o movimento visível como a essência do próprio movimento. Se for esse o caso, então os milhões que vão para casa depois da manifestação concluíram que eles não se sentem necessariamente responsáveis por aumentar o apoio à causa. Eles são capazes de retornar a suas origens e expressar sua relação com esse movimento de formas privadas, individuais. Se a manifestação é o grandioso momento público e as pessoas retornam posteriormente a vidas que elas entendem como privadas, então, num certo sentido, concordamos involuntariamente com o impulso corporativo pela privatização.
Organizar-se não é sinônimo de mobilizar-se. Agora que muitos de nós temos acesso às novas tecnologias de comunicação, como a internet e telefones celulares, precisamos pensar seriamente em como elas devem ser mais bem utilizadas. A internet é uma ferramenta incrível, mas ela também deve nos encorajar a pensar que podemos produzir movimentos instantâneos, movimentos modelados com a mesma rapidez que a entrega em casa de um fast food.
Quando se organizar está subordinado a mobilizar-se, o que você faz após a bem-sucedida mobilização? Como podemos gerar uma sensação de pertencer a comunidades em luta que não se evapore pelo massacre das rotinas diárias? Como construímos movimentos capazes de gerar o poder de compelir governos e corporações e restringir sua violência? Em última análise, como podemos resistir com êxito ao capitalismo global e a seu impulso pela dominação? [...].
A base fundamental dos movimentos mudou. A relação entre a profissionalização e os movimentos sociais mudou. A forma de politização mudou. O papel da cultura e a globalização da produção cultural mudaram. Eu não sei como falar sobre essa nova realidade, a não ser encorajando as pessoas a experimentar [...]. Eu sempre comento que os jovens hoje reverenciar em demasia as organizações mais antigas, a dos veteranos, e são meticulosos demais em seu desejo de depender de modelos de atuação. Todos querem alguma garantia de que aquilo que fazem terá resultados palpáveis. Eu acho que a melhor maneira de entender o que deve funcionar é simplesmente fazê-lo, a despeito dos erros potenciais que se pode cometer. Deve-se estar disposto a cometer erros. Na verdade, acho que os erros ajudam a produzir novos modos de organização - os modos que unem as pessoas e provocam um avanço na luta pela paz e pela justiça social”.
E assim encerramos mais uma temporada, com uma intensidade enorme, uma reflexão e autocrítica sobre os passos que daremos!
Em breve voltaremos, agora com Jackie Wang e falaremos sobre esse complexo-industrial-prisional!
*Marcos Morcego é comunicador político e educador popular, militante por Terra e Território das periferias de SP.
[1] A democracia da abolição, para além do império, das prisões e da tortura. Angela Davis. Difel: https://www.livrariasimples.com.br/produtos/a-democracia-da-abolicao-para-alem-do-imperio-das-prisoes-e-da-tortura-angela-davis-difel/
[2] Site da Autonomia Literária: https://autonomialiteraria.com.br/
[3] Revista Clio Operária: https://www.cliooperaria.com/
[4] Site da Editora Terra Sem Amos: https://tsaeditora.com.br/ / Drive com o livro gratuito https://mega.nz/folder/UYNwQZZS#rCNoahoz13hVy7Elyc4Ymg
[5] King. Ho Che Anderson. Editora Veneta
[6] Raça, Classe, Revolução: a luta pelo poder popular nos Estados Unidos. Jones Manoel e Gabriel Landi [org]. Autonomia Literária.
[7] The Century of Self. Adam Curtis. Documentário disponível gratuitamente no youtube e com legenda em pt-br.
[9] Sintomas mórbidos. Sabrina Fernandes. Autonomia Literária
[10] Redes e Ruas: mídias sociais e ativismo contemporâneo. Paolo Gerbaudo. Editora Funilaria. Playlist completa: https://youtube.com/playlist?list=PLwOYAlx_eyF23afrCwN_UkAVeKtgn6e8A&si=qu-9ANDzDWyYHcia
EXTRAS:
Colonialismo e luta anticolonial. Domenico Losurdo. Boitempo. (Sobre o Destino Manifesto)
Vídeo Mari Sanefuji sobre Destino Manifesto
Poder e contrapoder na América Latina. Florestan Fernandes. Expressão Popular. (Sobre protofascismo)
(livros da Autonomia Literária com cupom de desconto de 20%: #morcegonaautonomia)




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