Os sinos da Candelária que tocam na memória
- Vinicius Souza Fernandes da Silva

- 23 de jul. de 2025
- 7 min de leitura
Por Vinicius Souza Fernandes da Silva*
“A mais terrível de nossas heranças é esta de levar sempre conosco a cicatriz de torturador impressa na alma e pronta a explodir na brutalidade racista e classista.
Ela é que incandesce, ainda hoje, em tanta autoridade brasileira predisposta a torturar, seviciar e machucar os pobres que lhes caem às mãos. Ela, porém, provocando crescente indignação nos dará forças, amanhã, para conter os possessos e criar aqui uma sociedade solidária.”
Darcy Ribeiro

O futuro é, por excelência, uma profissão de fé. É necessário acreditar, por mais precisão que a vida possa oferecer a alguém, por maior que seja a capacidade de controle por condições favoráveis ao desenvolvimento das próprias pretensões, não existe futuro sem crença, o amanhã sempre será uma questão de confiança. O futuro como realização do prazer no meio do caminho até o que é irremediável - a morte, não existe sem estar associado a pulsão de vida. No entanto, o futuro abstrato como o caminho coletivo que a humanidade fará na impiedosa marcha da história, por outro lado, é um fardo dos ombros das crianças e adolescentes. As infâncias e juventudes carregam, por excelência, os sonhos mais idealistas da sociedade, mas esse não é o caso do Brasil que mata sistematicamente crianças, adolescentes e jovens. Não é o caso de um país genocida.
Que mensagem sobre o futuro é enviada ao seu próprio povo no país que tira a vida de 60 jovens por dia em média[1]? Há o futuro em um país que no período de 2013-2023 vitimou 312.713 jovens pela violência letal[2]? Esses são dados poderiam representar um país em guerra civil declarada, em ocupação colonial direta. Mas não, esses são dados da inconclusa democracia brasileira. São os dados que ocorrem mesmo sob a égide da Constituição Federal de 1988. São os dados que rasgam a carta magna. Em um beco escuro das periferias do Brasil, no encontro entre a viatura e um jovem negro, o estado de exceção passa a ser a norma permanente, nos complexos de favelas, onde a gestão da vida no território é feita por grupos armados que aplicam as próprias leis, a constituição é um fuzil. Para a população negra - a maior parte do povo brasileiro - a carta magna é um caveirão blindado.
As identidades brasileiras são múltiplas e diversas, parte da natureza social complexa de um país continental e grande o bastante para ser o quinto maior país do mundo em extensão territorial, formado pela integração forçada entre europeus e diversas etnias indígenas e africanas e ao incremento de inúmeros processos históricos de migração e refúgio nos quais os povos do mundo encontraram destino no Brasil. Mas o que consistentemente há de comum nessas diferentes identidades que formam as diferentes faces da experiência histórica de viver no Brasil é a violência. Ser brasileiro, viver nestes territórios, é ter a violência como parte da sua identidade e componente comum, até mesmo essencial, da sociabilidade que é produzida. Viver passa a ser violento e a violência, em diferentes formas de se expressar, passa a ser um elemento constitutivo da vida nacional.
Como cantam Gilberto Gil e Caetano Veloso, no clássico da Tropicália[3] “o Haiti é aqui”, denunciando o contexto de profunda desigualdade e violência racial no Brasil, é possível afirmar que Gaza é aqui. Não somente porque são as mesmas armas que matam as infâncias e juventudes palestinas e as brasileiras, mas porque há um genocídio que os movimentos sociais pela força da sua luta de Genocídio da Juventude Negra, um genocídio que ocorre nas ruas das cidades, nas águas do campo, onde o alvo é o jovem negro. A Faixa de Gaza está aqui. Gaza se encontra no jovem indígena Ava Guarani, decapitado no oeste do Paraná[4]; está aqui quando o Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, o temido BOPE, entrou no Morro Santo Amaro na capital carioca e assassinou Herus Guimarães Mendes abrindo fogo contra uma Festa Junina[5]. Assim como as favelas brasileiras, estão em Gaza quando milhares de crianças e adolescentes palestinas são assassinadas pelo exército de ocupação colonial, quando a cabeça das juventudes e de suas famílias são bombardeadas.
O Estado genocida de Israel jamais será uma democracia porque se trata de uma potência colonial, assim como o Brasil sempre será uma democracia inconclusa enquanto insistir em assassinar as suas infâncias e juventudes, em matar o seu próprio futuro 60 vezes por dia e mais de 20 mil vezes por ano. As periferias brasileiras são colônias e as suas forças de segurança pública são tropas de ocupação colonial, enquanto o país é disputado pela força de diferentes grupos armados. No centro desse processo, se encontra a produção em massa da morte das juventudes negras e dos povos racializados do Brasil. Segundo Malcolm X, a lógica de funcionamento da cidade racializada não é mais do que a de funcionamento da colônia. A periferia, ou seja, o bairro racializado é a colônia; as polícias, o exército de ocupação; e o bairro nobre, o território branco, a metrópole. A função da polícia é violentar o território do colonizado, no qual ele já é violentado pela precariedade dos serviços e necessidades básicas, para manter o colonizado sob controle através das armas, enquanto ele trabalha para os moradores da metrópole. Essa lógica, Franz Fanon nomeou enquanto a diferença entre a cidade do colonizado e a cidade do colonizador, a expressão das dinâmicas de um mesmo território que tão distinto, se tornam dois, geram duas experiências completamente opostos para o grupo dominante e o grupo racializado.
Foi dentro da lógica de violência colonial como construção dos sentidos da territorialidade das cidades que na noite de 23 de julho de 1993, nas escadarias da Igreja de Nossa Senhora da Candelária no Centro do Rio de Janeiro, que mais de 50 jovens negros e pobres que viviam em situação de rua foram acordados com tiros, disparados por policiais militares sem suas fardas. Conhecido mundialmente como Chacina da Candelária, este episódio ficou marcado pela morte de 8 jovens, sendo 6 deles adolescentes. Alguns sobreviventes, foram anos depois assassinados por policiais. Esse caso levou o Brasil mais uma vez à Corte Interamericana de Direitos Humanos. A Chacina da Candelária é reveladora do que é Genocídio da Juventude Negra. Quando o assunto é a morte de jovens negros, as periferias, as favelas e as ruas do Brasil se tornam todas campos de extermínio, todo status de jurídico de sujeitos subscritos no código de direitos é revogado. Não há cidadania, os jovens negros deixam de ser nacionais e, na mais tradicional lógica de produção de segurança pública da Ditadura Civil-Militar, se tornam inimigos internos a serem eliminados seja pelas forças policiais, pelos seus grupos de extermínio e esquadrões da morte ou pela produção de violência nos territórios.
Quando os tiros foram disparados contra as crianças, adolescentes e jovens nas escadarias de uma igreja localizada no centro da segunda capital mais importante do Brasil, a cidade maravilhosa para os turistas, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), assim como a Constituição Federal, foram automaticamente rasgados. Quando muito, o sistema político do Brasil não passa de uma democracia das chacinas. A formação colonial do Brasil, dentro do modelo português de de administração política do desenvolvimento do modo de produção escravista, foi baseada na concepção da criação de normas oficiais consideradas modernas para o período, como a restrição de torturas para escravizados ou eventos que performaram liberdade de culto em algumas regiões do país, no entanto, na fase final de aplicação deste código oficial, o que prevalecia era a força. Apesar das leis, a sociedade era regulada pela força, a lei das armas e da violência que era a oficialidade que era efetivada. E assim se desenvolveu a institucionalidade brasileira, com leis ditas modernas, mas com a força mediando as relações no interior da sociedade. E assim, o país do ECA, produz um genocídio contra a sua juventude negra.
O ato final de determinação sobre a vida das pessoas, o controle completo, aquilo conhecido, pela obra de Achillie Mbembe, como Necropolítica, a morte como parte da razão do Estado, fazendo do Leviatã o próprio produtor da morte. A identidade escravista impressa na alma do Brasil enquanto projeto de nação e realização do capitalismo tardio, mudando tampouco o seu lugar de colônia no mundo, cria mecanismos e condições de aceitabilidade para a violência, a convivência com números alarmantes e a produção de discursos que outrora serviram para a tortura e perseguição de escravizados se atualizam em um roupagem de segurança pública e criminalização da pobreza que, no limite, é a própria criminalização inerente a ser negro na sociedade brasileira. A Chacina da Candelária é a expressão de uma das formas pelas quais essa sociedade sempre se desenvolveu, a morte sistemática de jovens negros. Há 32 anos, futuro do Brasil enquanto projeto de nação, morreu um pouco mais nas escadarias de uma igreja, quando 8 jovens negros e pobres foram brutalmente assassinados por serem quem eram, negros, pobres e em situação de rua. Aos pés de uma igreja que outrora, fora construída por outros negros escravizados.
Nos lembraremos para que não mais se repita:
Paulo Roberto de Oliveira, 11 anos;
Anderson de Oliveira Pereira, 13 anos;
Marcelo Cândido de Jesus, 14 anos;
Valdevino Miguel de Almeida, 14 anos;
"Gambazinho", 17 anos;
Leandro Santos da Conceição, 17 anos;
Paulo José da Silva, 18 anos;
Marcos Antônio Alves da Silva, 19 anos.
Sempre presentes!
*Vinicius Souza Fernandes da Silva é historiador, cientista social, especialista em Direitos Humanos e Lutas Sociais. Editor e coordenador do Conselho Editorial da Clio Operária e associado ao Instituto Hauçá, estuda e escreve sobre os temas da filosofia política e história social brasileira. Tradutor e curador do livro “Há uma Revolução Mundial em andamento: discursos de Malcolm X” (LavraPalavra Editorial).
[1] Ver Atlas da Violência 2025. Link: <https://www.ipea.gov.br/atlasviolencia/arquivos/artigos/5999-atlasdaviolencia2025.pdf>.
[2] Idem.
[3] Caetano Veloso e Gilberto Gil, Tropicalia 2. Link: https://www.youtube.com/watch?v=PShf2AzheIk&list=RDPShf2AzheIk&start_radio=1&pp=ygUabyBoYWl0aSDDqSBhcXVpIHRyb3BpY2FsaWGgBwE%3D
[4] “Jovem guarani é decapitado ao lado de carta com ameaça à comunidade indígena de terras retomadas no PR”. Link: <https://www.brasildefato.com.br/2025/07/14/jovem-guarani-e-decapitado-ao-lado-de-carta-com-ameaca-as-comunidades-indigenas-do-pr/>.
[5] “‘Favelado não é bandido. Meu filho não era bandido’: morro Santo Amaro se une em ato após morte de jovem”. Link: <https://www.brasildefato.com.br/2025/06/09/favelado-nao-e-bandido-meu-filho-nao-era-bandido-morro-santo-amaro-se-une-em-ato-apos-morte-de-jovem/>.
Referências
NASCIMENTO, A. O genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo mascarado. São Paulo: Perspectivas, 2016.
FANON, Fanon. Os condenados da terra. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira. 1968.
X, Malcolm. Há uma revolução mundial em andamento: discursos de Malcolm X. São Paulo: LavraPalavra, 2020.
Mbembe, Achillie. Necropolitica. Disponível em: https://www.procomum.org/wp-content/uploads/2019/04/necropolitica.pdf. Acesso em: 22 de jul. de 2025.



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