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O Globo de Ouro e a festa da elite cultural

Por Vinicius Souza Fernandes da Silva*


O Brasil está em festa e não poderia ser diferente, considerando que este é o país que viveu uma de suas maiores penitências nos quatro anos de mandato de Jair Messias Bolsonaro, hoje preso pela Polícia Federal por liderar uma conspiração que atentou contra o Estado Democrático de Direito. Durante seu governo, as portas do pior inferno possível se abriram nessas terras, os brasileiros foram vítimas e testemunhas de um genocídio que ceifou a vida de mais de 600 mil pessoas durante a pandemia de covid-19. A intencional negligência da Presidência da República e seus comparsas na Esplanada dos Ministérios gerou um dos maiores traumas da nossa história. A imagem que representa o Governo Bolsonaro, não poderia ser outra, senão aquela do maior cemitério da América Latina, localizado na Vila Formosa, zona leste de São Paulo, com milhares de covas abertas aguardando aqueles que se foram[1]. 


A morte, no entanto, não era somente física naquele período, houve uma tentativa de assassinar as almas do povo brasileiro. Da Fundação Palmares à extinção do Ministério da Cultura, as identidades populares foram perseguidas, os incentivos à cultura destruídos e a história do país foi revista. Um dos maiores exemplos à época, foi o filme dirigido por Wagner Moura e protagonizado por um dos maiores atores brasileiro em atividade, Seu Jorge, Marighella demorou mais de 2 anos para ser lançado no Brasil devido ao contexto política da época e as tentativas de silenciar a história do inimigo número um da Ditadura Civil-Militar. A cultura no Brasil era regida por pessoas como Roberto Alvim que performou Joseph Goebbels[2] em um pronunciamento e Regina Duarte, a famosa namoradinha do Brasil.


Em 2022, Bolsonaro é derrotado nas urnas em uma vitória histórica de Luiz Inácio Lula da Silva que se tornou a primeira pessoa a ser eleita por três vezes como Presidente da República, uma vitória regada a mobilização popular que venceu as medidas populistas desesperadas de Bolsonaro, tentativas de golpe do diretor da PRF e a máquina de propaganda da extrema-direita. Com o retorno de Lula ao governo, a cultura volta a ganhar espaço na agenda do Estado Brasileiro, a começar pela recriação do Ministério da Cultura, hoje chefiado por Margareth Menezes. Mas a festa da cultura se concretizou de fato em 2025, quando fantástico filme dirigido por Walter Salles e protagonizado por Fernanda Torres rendeu à atriz o Globo de Ouro, o mesmo que sua mãe ganhou em 1999 com o mesmo diretor com o clássico Central do Brasil  e o Oscar de Melhor Filme Internacional, a cultura brasileiro não só saiu dos porões do fascismo de Bolsonaro, como conquistou o mundo. 


O primeiro Globo de Mouro desde 1999 e o primeiro Oscar do Brasil, uma vitória do cinema e da cultura nacional e, com certeza, uma projeção do papel e do tamanho que o país pode exercer no mundo. As vitórias são ainda mais celebradas quando consideramos o tema do filme. A obra baseada nas memórias de Marcelo Paiva, retrata a luta de sua mãe, Eunice Paiva, quando do assassinato e desaparecimento do corpo de seu pai, o Deputado desenvolvimentista Rubens Paiva pela ditadura. O filme faz Brasil encarar a sua própria história e os demônios de sua memória demonstrando, ao estilo dos filmes intimistas de Salles, os efeitos nefastos da violência do Estado na vida de uma família de classe média no Rio de Janeiro - uma família que fazia festas, tinha conflitos com filhos adolescentes, ia a praia, dançava, enfim, somente uma família. 


Seguindo o caminho de desvelar as atrocidades da ditadura através do cinema, ainda no início de 2026, o Brasil ganha mais dois prêmios no Globo de Ouro com o aclamado Agente Secreto, escrito e dirigido por Kleber Mendonça Filho e protagonizado por Wagner Moura, o filme conquistou o prêmio de Melhor Filme de Língua não Inglesa e Moura o de Melhor Ator de Filme de Drama, o mesmo conquistado na categoria de atriz pelas Fernandas, mãe e filha. O filme tratando das práticas de espionagem e inteligência durante a ditadura, alcançou uma vitória ainda maior por trazer a total centralidade do Nordeste Brasileiro em uma temática que monopoliza o cinema nacional com filmes do Sudeste, principalmente de São Paulo e Rio de Janeiro. Mais uma vez, o Brasil entra em festa com a sua cultura audiovisual conquistando o mundo mostrando a grandiosidade da sua arte. 


Não é exagero dizer que o cinema brasileiro está representado no resto do mundo, mas resta questionar e analisar com profundidade - quem é o rosto ou quais os rostos de quem representa o cinema do país com mais da metade da população autodeclarada negra e de origem indígena com 391 etnias? Em verdade, são três globos de ouro de melhor atuação em filme de drama e três atores brancos. Uma delas, Fernanda Torres, apesar de excelente atriz, herdou o lobby cultural já consolidado de uma das maiores atrizes da história do audiovisual brasileiro, sua mãe, também ganhadora do Globo de Ouro, Fernanda Montenegro, e de seu pai, Fernando Torres, ator, produtor e diretor. A própria atriz, em entrevista ao Roda Viva afirma que cresceu rodeada por inúmeros artistas por quem foi diretamente influenciada diretamente em sua vida. Um artista de excelência, mas que foi criada para assim ser e nasceu com seu caminho já dado pela sua herança de família. Uma coisa muito comum entre os brancos do Brasil nas mais diversas áreas.


Por outro lado, um dos maiores atores vivos do Brasil, um homem negro de 55 anos de idade, nascido no Rio de Janeiro, músico extraordinário, Jorge Mário da Silva, conhecido mundialmente como Seu Jorge, ele que protagonizou um dos maiores filmes sobre a ditadura, Marighella, lançado em 2019 para o mundo e em 2021  para o Brasil, com um elenco que não era quase que 100% branco, como Ainda Estou Aqui, jamais foi alçado a tanto pela indústria cultural brasileira. Um ator de excelência completa, eternizado na memória coletiva dos brasileiros por interpretar Mané Galinha no clássico Cidade de Deus, lançado em 2002, no ano de estreia de Seu Jorge no cinema, aos seus 32 anos de idade. Um ator de excelência que chegou a estar em situação de rua na busca por fazer a vida nas artes acontecer. Aclamado por sua carreira no cinema e na música, mas jamais alçado a este lugar de representante do cinema brasileiro. 


Para além de Seu Jorge, Lázaro Ramos, reconhecido nacionalmente por papéis icônicos no audiovisual brasileiro, grande parceiro de tela de Wagner Moura, o ator baiano se consolidou ao mesmo tempo em novelas e em filmes. No cinema, fez papéis históricos em clássicos brasileiros como Madame Satã, O homem que copiava, Ô pai ó, Cidade Baixa (esses dois o lado de Wagner Moura), narrou documentários como Marighella[3] e Mussum, um Filme do Cacetis. Além de ter estreado como diretor no filme Medida Provisório, contando com atuações fantásticas de Seu Jorge, Taís Araújo e Alfred Enoch. Eternizado pela teledramaturgia da Globo, mas sem o mesmo capital simbólico que a elite cultural brasileira investe em seus filhos ou agregados, sem Globo de Ouro ou Oscar, apesar de seu rosto ser o de milhões de brasileiros, não é o rosto que representa o cinema nacional no mundo.


O que dizer ainda de nomes como Teca Pereira, atriz e bailarina, uma artista de 73 anos de idade, com carreira no teatro, cinema e televisão que atravessa o audiovisual brasileiro em dois séculos diferentes, por que será que Teca Pereira não alcançou o mesmo nível de reconhecimento que Fernanda Montenegro? Quem conhece seu trabalho, sabe que a razão não é por ausência de talento ou não ser tão boa quanto. Mas os exemplos são inúmeros, como Ruth de Souza, aquela que é provavelmente a maior atriz brasileira de todos os tempos e a primeira referência negra na televisão, aquela que interpretou Carolina Maria de Jesus ou Léa Garcia ganhadora do Festival de Cannes em 1957 por sua atuação no filme Orfeu Negro - é o rosto delas que deveria aparecer no instante que pensamos em cinema brasileiro, não somente o de atores, atrizes e diretores e diretoras brancos. 


Os sentidos da crítica do documentário A negação do Brasil[4], seguem vivos, é necessário pensar não somente as representações das pessoas racializadas no audiovisual, mas o lugar que ocupam e o tamanho do espaço que possuem. Um sintoma direto da hegemonia racial no audiovisual brasileiro está expresso nos famosos filmes sobre a ditadura quando levantamos a seguinte questão - Por que não há investimento direto, capital cultural e interesse em produzir filmes sobre a questão racial na Ditadura Civil-Militar? Um filme sobre como o Esquadrão da Morte destruía a vida de famílias negras e periféricas assassinando os seus jovens e filhos mobilizaria interesse da indústria, seja ela independente ou não, tanto quanto um filme sobre uma família branca de classe média[5]? Até mesmo um filme que demonstrasse o importante papel que o movimento negro teve na luta pela anistia e na constituinte? Ou ainda sobre o papel importantíssimo das Escolas de Samba do ponto de vista da resistência? Será que um bilionário branco como Walter Salles, um dos herdeiros do Banco Itaú e diretor de Central do Brasil e Ainda Estou Aqui, teria interesse nessas temáticas? Será que um diretor como Kleber Mendonça Filho encontraria apoio da indústria cultural brasileira para essa finalidade?


É preciso refletir e questionar se as razões pelas quais Abdias Nascimento criou o Teatro Experimental do Negro (TEN) em 1944 ainda paíram sobre nossas cabeças. Muito do que somente alçar a população negra ao protagonismo das narrativas, produções e atuações, o TEN se transformou em um organismo político que, com centralidade na cultura, enfrentou diretamente as questões centrais do racismo na sociedade brasileira[6] ou o Teatro Popular Brasileiro de Solano Trindade[7]. Eis que 81 anos depois da criação do TEN, os representantes do audiovisual brasileiro hoje no mundo são três atores e atrizes brancos e dois diretores brancos. Nos anos 40, a ausência da população negra nas atuações era tão grande que quando haviam peças ou obras com personagens negros os atores brancos tinham seus rostos pintados, o TEN enfrentou e acabou com isso, décadas depois é lançada a novela Escrava Isaura na qual a protagonista foi interpretada por Lucélia Santos, uma mulher branca, isso também foi combatido e superado. E hoje, onde estamos? 


Ainda há muito a ser feito para construir o protagonismo negro e indígena no cinema nacional, por hora o Brasil está em festa por Wagner Moura, como esteve antes por Fernanda Torres, mas não esqueçamos que são vitórias do cinema brasileiro, mas também são vitórias específicas das elites culturais brasileiras do Nordeste e do Sudeste, brancas por excelência. A festa será muito maior quando Alice Carvalho, Seu Jorge, Teca Pereira, Vilma Melo, Juan Paiva, Zezé Mota, Lázaro Ramos, Taís Araújo e tantos artistas negros e negras forem alçados a representantes do cinema brasileiro no mundo. 

*Vinicius Souza Fernandes da Silva é historiador, cientista social, especialista em Direitos Humanos e Lutas Sociais e pós-graduando em Direitos de Crianças e Adolescentes, Interculturalidades e Mudanças Climáticas pelo CEAM/UnB. Editor da Clio Operária e associado ao Instituto Hauçá, estuda e escreve sobre epistemologia política, o papel da violência no desenvolvimento histórico do Brasil e povos e comunidades tradicionais de terreiro e de matriz africana. Tradutor e curador do livro “Há uma Revolução Mundial em andamento: discursos de Malcolm X” (LavraPalavra Editorial).


[1] “Covas abertas em cemitério de São Paulo têm destaque internacional”. Disponível em: https://observatorio3setor.org.br/covas-abertas-em-cemiterio-de-sp-tem-destaque-internacional/


[2] “'Na Alemanha ele estaria preso': Vídeo de Alvim inspirado em Goebbels configura apologia ao nazismo, diz presidente da OAB”. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-51149263


[3] O documentário aqui citado possui o mesmo título do filme protagonizado por Seu Jorge, mas refere-se ao documentário lançado em 2012 e dirigido por Isa Grinspum Ferraz. A obra está disponível em: https://youtu.be/nrML72dykk4


[4] Documentário escrito por Joel Zito Araújo, lançado nos anos 2000, analisa profundamente o papel de artistas negros na teledramaturgia brasileira, além de como são os negros representados na televisão. A obra está disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=p28P_L-aXb8


[5] O papel que o Esquadrão da Morte possuía em execuções sumárias aos chamados criminosos comuns, antes de se tornar um instrumento de combate aos chamados criminosos políticos, pode ser verificado na obra de de Hélio Bicudo, Meu depoimento sobre o esquadrão da morte, publicado em 1977.


[6] O Teatro Experimental do Negro surgiu na década de 1940 por iniciativa de Abdias Nascimento, realizando releituras de grandes peças com atores negros e criando iniciativas artísticas que valorizassem a cultura negra, como tmepo o TEN se transformou também em forte instrumento político na luta pela superação do racismo. Grandes artistas integraram o TEN como Ruth de Souza, Léa Garcia e Grande Otelo.


[7] Criado em 1950 por iniciativa de Solano Trindade e Maria Margarida da Trindade, o Teatro Popular Brasileiro era um instrumento política de organização das camadas populares brasileiras através da arte e que, em alguns momentos, divergiu até mesmo do TEN devido a sua orientação marxista.


 
 
 
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