top of page
Buscar

A Guerra das Realidades: como a ideologia constrói e destrói territórios brasileiros

Por William Poiato


Na cena final do filme A Batalha em Seattle (2007), um jovem ativista segura uma pedra em uma mão e uma flor na outra, encapsulando o dilema entre confronto e diálogo. No Brasil real, uma imagem ainda mais poderosa se desenha: um líder Guarani-Kaiowá segura o laudo antropológico que comprova seu direito ancestral à terra em uma mão e o cachimbo sagrado do ritual Jeroky Guasu na outra. Este não é um gesto de contradição, mas de sobrevivência epistêmica. Ele materializa a guerra invisível que este artigo desvenda: o conflito entre realidades distintas, onde a posse da terra é decidida pela força de quem consegue impor sua verdade sobre ela.


O que está em jogo nesses conflitos não são apenas hectares de terra, mas realidades em choque. A ideologia, em Marx e Gramsci, nos revela que ela não é simples “falsa consciência”, mas um processo ativo de constituição de verdade. Enquanto Marx, nos anos 1840, já entendia a ideologia como uma “função social real” que substitui imaginariamente a práxis concreta, Gramsci radicalizou essa visão: a ideologia é o terreno onde se constrói hegemonia, onde certa visão de mundo se torna a realidade dominante.


A Ideologia do Agronegócio: o Mapa que Engole o Território


A “fronteira” agrícola é a materialização de uma poderosa construção ideológica. Quando grileiros e madeireiros invadem terras indígenas legalmente protegidas, eles não estão apenas quebrando a lei — estão impondo uma verdade prática: a de que a natureza e a terra são, acima de tudo, mercadorias. Esta é a ideologia em seu sentido gramsciano mais puro: um processo de constituição de verdade/realidade que organiza toda a vida social em torno do lucro.


O mesmo processo ocorre no Cerrado, com a criação de “zonas de sacrifício”. O Plano Matopiba não é apenas uma política pública — é a expressão de uma hegemonia ideológica que conseguiu convencer a sociedade de que 607 milhões de litros de agrotóxicos anuais e o desmatamento de mais de 50% do bioma são o preço necessário do “progresso”. As camponesas que sentem “desassossego” e medo não são vítimas de uma ilusão, mas de uma realidade muito concreta: a realidade imposta por uma ideologia que as considera sacrificáveis.


A genialidade gramsciana está em entender que essa hegemonia não se sustenta apenas pela força policial, nas reintegrações de posse etc., mas pela construção de um senso comum onde o agronegócio é “o que sustenta o país” e os territórios tradicionais são “improdutivos”.


A Contraideologia dos Territórios: o Ritual como Ato Político


Contra essa realidade imposta, os povos tradicionais constroem suas próprias contraideologias — no sentido positivo que Gramsci atribuía ao termo. Um relato pode ilustrar bem isso: quando o ñanderu Atanásio Teixeira declara, antes da retomada de Jaguapiré-memby, que age por “ordem dos guardiões da terra do cosmo”, ele não está recorrendo a uma superstição. Está afirmando uma verdade alternativa à do agronegócio: a verdade de que o território (tekoha) é um ser vivo, habitado pelos antepassados e regido por leis cósmicas.


O ritual do Jeroky Guasu não é um escape da realidade — é um ato de constituição de realidade. Enquanto o agronegócio constrói sua hegemonia por meio de relatórios de produtividade e mapas de plantio, os Guarani-Kaiowá constroem a sua por meio de cantos, danças e assembleias. São duas práxis em conflito, duas formas de organizar material e simbolicamente o mundo.


Aqui reside a profunda conexão com Marx: a ideologia como “substituto imaginário da práxis social concreta”. O agronegócio substitui a relação viva com a terra por uma abstração mercantil; os Guarani restauram a relação concreta por meio do ritual.


A Batalha pela Hegemonia: Direito, Ritual e Resistência


O que torna esse conflito especialmente dramático é que ele não ocorre em campos separados. A verdadeira batalha ideológica acontece quando visões de mundo competem pela hegemonia dentro do mesmo espaço social.


As petições escritas (kuatiañe'ẽ) dos Guarani-Kaiowá, as ações judiciais das camponesas do Cerrado e as operações do MPF em Rondônia representam tentativas de traduzir uma realidade para a linguagem da outra. Quando um laudo antropológico tenta explicar ao Estado o que é um tekoha, ou quando uma ação judicial tenta proteger os “comuns” camponeses, ocorre um esforço hercúleo para que uma contraideologia seja reconhecida como válida dentro da hegemonia dominante.


Esta é a dimensão prática da “unidade teoria-prática” gramsciana: a resistência não é apenas dizer “não” ao agronegócio, mas construir ativamente alternativas de realidade — por meio da agroecologia, da manutenção dos saberes tradicionais e da judicialização estratégica.


Da arte à vida — para a arte


Se em A Batalha em Seattle a escolha era entre a pedra e a flor, nos territórios brasileiros a disputa é entre o laudo e o cachimbo, o mapa e o rio, a commodity e o comum. O líder Guarani-Kaiowá que segura ambos os instrumentos não está dividido — está mostrando o caminho. Ele compreende que a sobrevivência de seu povo depende da capacidade de ler o mapa do opressor sem esquecer a canção do ancestral.


A crise ambiental brasileira é, no fundo, uma crise de realidade. A realidade imposta pelo agronegócio — da terra como mercadoria, das pessoas como sacrificáveis — esgota-se em sua própria lógica predatória. Como previa Gramsci, a saída exige a “construção prática-política de um substituto real”. Os territórios tradicionais são justamente isso: projetos de realidade em ação, onde se forja, no calor da luta, uma nova hegemonia.


O futuro do país não será decidido por quem tem mais tratores ou balas, mas por qual verdade conseguirá, finalmente, se enraizar. O cachimbo sagrado e o laudo de demarcação, juntos, não são símbolos de resistência, mas de ressurreição — a prova de que uma nova realidade já está nascendo no solo devastado das fronteiras. A pergunta que ecoa das assembleias Guarani até as cozinhas das camponesas é a mesma: que mundo queremos habitar? A resposta está germinando nos interstícios de um sistema em colapso.


REFERÊNCIAS


BENITES, Tonico. Recuperação dos territórios tradicionais guarani-kaiowá. Crónica das táticas e estratégias. Journal de la Société des Américanistes, v. 100, n. 100-2, p. 229-240, 2014.


DA COSTA SILVA, Ricardo Gilson et al. Fronteira, direitos humanos e territórios tradicionais em Rondônia (Amazônia Brasileira). Revista de Geografía Norte Grande, n. 77, p. 253-271, 2020.


FROSINI, Fabio. Ideologia em Marx e em Gramsci. Educação e filosofia, v. 28, n. 56, p. 559-582, 2014.


RIGOTTO, Raquel Maria; SANTOS, Valéria Pereira; COSTA, André Monteiro. Territórios tradicionais de vida e as zonas de sacrifício do agronegócio no Cerrado. Saúde em Debate, v. 46, n. spe2, p. 13-27, 2022.


 
 
 

Comentários


bottom of page